Cultura e folclore paulista: festas e devoções

Imagens de representações de santos católicos na Festa de São Benedito, em Guaratinguetá.

Ao longo do tempo, o calendário das festas populares e devoções foi sendo construído de acordo com a tradição católica. De maneira geral, essas celebrações ocorrem em ciclos bem demarcados:

  • Ciclo natalino e de Reis: dezembro/janeiro
  • Ciclo carnavalesco: fevereiro/março
  • Quaresma e Semana Santa: 40 dias após a quarta-feira de Cinzas
  • Ciclo do Divino: 50 dias após a Páscoa
  • Ciclo junino: junho

Às vezes, a preparação de grandes festas, em algumas localidades, como as festas de Reis e do Divino começam bem antes da sua data de realização. Essas fases preparatórias consistem de rituais que complementam de forma especial a festa propriamente dita.

É interessante ver que sempre existe uma mistura entre a devoção religiosa e festividade profana nessas celebrações. Ao mesmo tempo em que há rezas e procissões, também há muita festa, música e danças.

Cavalaria de São Benedito

Em Guaratinguetá, ocorre a mais tradicional cavalaria paulista em louvor a São Benedito. Esse evento ocorre há quase três séculos, anualmente, durante o período da Páscoa.

A história conta que a tradição teve origem da antiga Festa de São Gonçalo. A cavalaria reúne centenas de cavaleiros, homens e mulheres, que percorrem a cidade em filas indianas. Os participantes trajam camisas, calças e bonés brancos, além de fitas verdes e amarelas que cruzam o peito. Os mantenas são responsáveis pela organização dos cavaleiros e podem ser identificados pelo seu traje de gala: terno branco, gravata preta e chapéu de feltro branco com cravo vermelho na lapela.

Corpus Christi

Tapetes enfeitam as ruas no Dia de Corpus Christi, em Santana do Parnaíba.

Corpus Christi vem do latim e quer dizer “Corpo de Cristo”.

A celebração foi criada pela Igreja Católica, no século 13, para lembrar a presença e o sangue de Cristo, um dos sacramentos da Eucaristia. Essa é uma das festividades que giram em torno da Páscoa. O Corpus Christi é celebrado na quinta-feira após o domingo de Pentecostes que, por sua vez, é comemorado 50 dias após o domingo de Páscoa.

A maior característica dessa celebração é a confecção de tapetes coloridos e com desenhos que lembram a data. Confeccionados com pétalas de flores, serragem tingida, vidro moído, casca de ovo, pó de café e outros materiais, os tapetes cobrem as ruas por onde passam as procissões e são feitos pela própria comunidade. Em Borborema, as ruas são enfeitadas também com bordados e artesanatos produzidos pelas lojas e fábricas da cidade.

A tradição dos tapetes é uma herança portuguesa ainda do período colonial. Eles se estendem por vários metros e o caminho, geralmente, interliga duas igrejas por onde o Santíssimo Sacramento passará.

A celebração ocorre em várias cidades paulistas, com destaque para as manifestações em Matão, São Manuel, Caçapava, Santana do Parnaíba, Taubaté, São Luiz do Paraitinga, Taquaritinga e Capivari.

Dia de São Cosme e São Damião

O dia dos santos gêmeos Cosme e Damião, 26 de setembro para os católicos e 27 para outras religiões, é comemorado em diversas cidades paulistas. Considerados protetores das crianças, os santos são homenageados na tradição do catolicismo e da umbanda - os “ibeji”, divindades gêmeas sincretizados em Cosme e Damião.

Nesse dia, são distribuídos doces e brinquedos para as crianças.

Encomendação das Almas

Também conhecida como Procissão de Recomendação ou Recomenda das Almas, é uma devoção herdada de Portugal.

Através de uma procissão realizada, geralmente, nas sextas-feiras da Quaresma, os penitentes rezam pela salvação das almas que estão no purgatório. Os participantes, ou “recomendadores”, caminham pelas ruas, por volta da meia-noite, com a cabeça ou mesmo o corpo cobertos por panos ou lençóis brancos e segurando velas acesas. Alguns membros do grupo carregam um estandarte, uma cruz e matracas para alertar os moradores das casas. Durante a caminhada, rezam Pai-Nosso e Ave-Maria. O fogo dentro das casas deve estar sempre apagado. Em muitas janelas estão colocados café e comidas para os visitantes.

Uma curiosidade: os participantes da procissão fazem questão que o número de casas visitadas seja ímpar.

Mais informações: assista ao documentário Encomendação das Almas , de Wanderson Brandão Gonçalves, que mostra como a tradição sobrevive às modernidades em Minas Gerais.

Encontro dos Batelões

Na região do Médio Tietê, no principal dia da Festa do Divino, ocorrem os encontros fluviais das Irmandades do Divino.

O encontro reúne canoas e batelões, grandes barcos capazes de transportar até 60 pessoas, impulsionados por varejões ou por remos. Os participantes vestem calças e camisas brancas, gorros azuis e cintos vermelhos. Após o embarque, alguns barcos seguem rio abaixo e outros seguem rio acima em meio a revoadas de pombos e tiroteios preparados pelos fogueteiros artesanais.

Após a procissão pelo rio, todos se encaminham para uma missa campal e para a quermesse no salão da igreja da cidade.

Festa da Carpição

Geralmente, ocorre no dia 15 de agosto. O nome da festa esá relacionada com a primeira etapa da celebração: a limpeza do mato no entorno da igreja local. Em seguida, é recolhido um punhado de terra. Ao ser colocado junto à parte enferma do corpo de uma pessoa ou animal, acredita-se que tenha efeito curativo. Além desse ritual, há festas e quermesses.

A festa é associada à Nossa Senhora da Carpição e Nossa Senhora do Bom Sucesso, título que remete ao auxílio de Maria, mãe de Jesus, aos que desejam sucesso em seus tratamentos de saúde e nos seus empreendimentos.

Ocorre em São José dos Campos (no bairro de Remédios e no bairro do Bom Sucesso) e em Guarulhos (no bairro de Bom Sucesso).

Festa de Bom Jesus

Festa realizada em várias cidades paulistas, como Iguape, Tremembé e Pirapora do Bom Jesus, sendo que, nesta última, é a mais célebre do estado. A tradição nasceu com o aparecimento de uma imagem do Senhor Bom Jesus na região, tornando a festa um tradição entre os devotos e romeiros de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso.

Além da devoção religiosa, o encontro de tantas pessoas também propiciou reuniões festivas regadas a competições de grupos de samba tradicional paulista também chamado de samba de bumbo, samba de pirapora ou samba caipira.

Festa de Iemanjá

Diferente da grande maioria das festas, cuja origem está intimamente relacionado com as práticas do catolicismo, esta homenageia Iemanjá, orixá das religiões afro-brasileiras.

Iemanjá é a representação da força das águas dos rios e mares. Em muitos países, ela é designada como a "rainha do mar". Ela também é associada, dentro do sincretismo religioso, à Nossa Senhora da Candelária e à Nossa Senhora da Conceição.

Embora o Dia de Iemanjá seja comemorado em 2 de fevereiro, muitas homenagens são realizadas durante o mês dezembro (geralmente no dia 8) e, principalmente, no último dia do ano (Réveillon), nas cidades litorâneas de todo o Brasil. As pessoas se vestem com trajes branco e oferecem flores e presentes ao mar para agradecer ou fazer pedidos à orixá.

Festa de Nossa Senhora de Aparecida

Foto aérea do Santuário Nacional da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte.

Ocorre por ocasião do Dia de Nossa Senhora, padroeira do Brasil, comemorardo no dia 12 de outubro.

Muitas festas em homenagem à santa ocorrem no Brasil e, no estado de São Paulo, a mais famosa é a da cidade de Aparecida, no Vale do Paraíba. Milhares de devotos deslocam-se ao Santuário Nacional de Aparecida para pagar promessas, participar das procissões e assistir aos eventos que acontecem nesse período. Os festejos mais culturais reúnem grupos de moçambiques, congadas e outras manifestações folclóricas.

Festa de Santa Cruz

Essa é uma festa religiosa, originária da tradição cristã do dia da Santa Cruz, comemorada em algumas localidades no dia 3 de maio ou em uma data próxima.

A devoção de Santa Cruz é uma das mais marcantes no país. A celebração à santa foi trazida pelos jesuítas e logo adaptada à cultura indígena, como a inserção da dança “sarabaquê”, visando a catequização dos índios. Para os guaranis, ela era a “santa curuzu” e para os tupi “santa curuçá”. Há sempre a presença de grandes cruzes (localizadas em locais centrais, como praças e em frente às igrejas), danças, cantorias ao som de violas; sendo que a festa é dividida em 3 partes: saudação, roda e despedida. A festa é considerada uma das grandes contribuições dos jesuítas e dos índios para a formação cultural do Estado de São Paulo. É comemorada no início de maio (perto do dia 3), em cidades como Embu, Itaquaquecetuba, Brotas e Carapicuíba (a mais famosa).

Festa de São Benedito

São Benedito é considerado o principal padroeiro da comunidade negra no Brasil. As homenagens são realizadas em datas diversas, conforme a tradição de cada região. Ocorrem em Tietê, Itapira, Atibaia, Arujá, Guaratinguetá e Aparecida. Nessas duas últimas cidades, as festividades são bem movimentadas e as mais tradicionais do Vale do Paraíba.

O dia de homenagem ao santo pela igreja é 20 de janeiro, embora as festividades ocorram em datas diferentes - em geral, após as festas do Divino Espírito Santo. A festa mais tradicional é bem movimentada e possui inúmeros rituais: desfile de ternos de congo e moçambique, missas (destaca-se a Missa Conga), cerimônia em torno da coroa, levantamento de mastro, coroação dos reis e rainhas negros e folia-de-reis.

Festa de São Gonçalo

São Gonçalo, também conhecido como Gonçalo de Amarante, nasceu e viveu em Portugal nos séculos XII e XIII.

Originalmente no dia 10 de janeiro, dia de sua morte, a festa em sua homenagem chegou ao Brasil no início do século XVIII e passou a fazer parte das festas juninas. O diferencial da festa é a dança de São Gonçalo, uma espécie de pagamento de promessa ao santo que pode durar horas. É realizada, geralmente, em locais pequenos como no interior das casas e nos quintais. Na frente de um altar, apresenta-se a imagem do santo.

A festa é popular em muitas cidades paulistas, como Arujá, Nazaré Paulista, Atibaia, Joanópolis, Lagoinha, Santa Isabel, Mogi das Cruzes e São José dos Campos.

Festas do Divino Espírito Santo

Conhecida também como Festa de Pentecostes, essa é uma festa móvel do calendário católico que ocorre no domingo de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa. Nessa data, comemora-se a presença do Divino Espírito Santo entre os apóstolos de Jesus Cristo.

A devoção ao Divino Espírito Santo constitui-se numa das mais fortes manifestações populares, podendo ser encontrada em vários cantos do Brasil, inclusive em São Paulo, desde os tempos do Brasil Colônia.

Os festejos costumam incluir a folia do Divino e a novena do Espírito Santo cujo término marca o início da procissão da bandeira. O seu hasteamento, por sua vez, marca o início da parte profana da festa, quando ocorrem cavalhadas, bois, mascarados, marabaixo, pastorinhas, etc. A festa mais tradicional possui uma parte em que ocorre o estabelecimento de uma corte - o Império do Divino - com direito a escolha de um imperador. Serve-se o afogado, prato especial, que é composto por carne de boi ensopada, arroz, feijão, farinha de mandioca e batata cozida. Os ingredientes vêm das doações recolhidas nas folias que ocorrem dias antes da festa.

As folias do Divino reúnem grupos de cantadores que visitam as casas de fiéis nas regiões próximas, a fim de cantar louvores ao Espírito Santo e recolher doações. No grupo há sempre um “bandeireiro”, encarregado de conduzir a bandeira do Divino, ilustrada pela pomba que simboliza o Espírito Santo. Muitas cidades paulistas realizam grandes festas que duram dias, como São Luis do Paraitinga, Lagoinha, Nazaré Paulista, Cunha, Mogi das Cruzes, Salesópolis, Piracicaba, Tietê, Anhembi e Laranjal Paulista.

Festas Juninas

Não é errado afirmar que as festas juninas são os festejos mais populares no Brasil.

Essas festas nasceram de rituais pagãos de celebração à fartura, mas foram incorporadas à tradição religiosa e passaram a existir como uma forma de homenagear aos principais santos da Igreja Católica: Santo Antônio, em 13 de junho, São João Batista, em 24 de junho, e São Pedro, em 29 de junho.

Embora a parte festiva - quadrilhas juninas, comidas típicas, barracas de jogos, "casamento caipira", bandeirinhas e outros elementros tradicionais - seja a mais célebre e executada em todos os lugares, inclusive nos grandes centros urbanos, a parte religiosa é ainda considerada importante e preservada, principalmente nas localidades rurais do interior paulista.

Folia de Reis

Folia de reis com destaque para um participante tocando uma viola.

A Folia de Reis ou a Festa dos Santos Reis presta uma homenagem aos três reis magos (Gaspar, Belchior e Baltazar), cujo dia oficial é 6 de janeiro.

O forte desta comemoração é a presença das folias de reis, grupos devocionais, geralmente formados por homens, que representam a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. Assim como nas Folias do Divino, esses grupos visitam as casas e realizam cantorias, rituais de louvação e pedidos de doações para a festa.

Os foliões surgem fantasiados e portam instrumentos musicais e uma bandeira. Eles são recebidos, logo na porta, pelo dono da casa. Este a conduz para dentro a bandeira, passando-a sobre a cabeça dos membros da família e por todos os cômodos - acreditam que isso garante a proteção divina.

Alguns foliões se vestem de palhaços com máscaras, chapéus com formato de cone, roupas coloridas e folgadas. Eles fazem o papel dos “soldados do rei Herodes”. As visitas, ou “giros”, acontecem entre os dias 24 de dezembro e 6 de janeiro.

A festa é muito tradicional no interior paulista. Por conta da presença expressiva de folias nas regiões norte e noroeste do estado, são realizados grandes encontros de folias - alguns reúnem mais de 50 grupos. Essas festas são comuns nas cidaddes de Altinópolis, Barretos, Ribeirão Preto, Votuporanga, entre outras. Muitos organizadores desses eventos preocupam-se em marcar as festas em seus municípios em datas que não se coincidam com as dos outros - o que em por muitas vezes torna-se inevitável. Por essa razão, não é raro encontrar folias de reis sendo realizadas em meados do ano, apenas com interrupções para a celebração do período quaresmal.

Procissões das Águas

Além dos encontros dos Irmãos do Divino nas águas do Médio Tietê (região em que o rio volta de novo à vida), observamos outras devoções semelhantes, estruturadas em grandes cortejos fluviais, lacustres e marítimos de embarcações variadas como barcos, bateras, ubás, botes, chatas, lanchas, balsas e boias. Busca-se com eles homenagear Bom Jesus, São Pedro e Nossa Senhora dos Navegantes, do Livramento, do Rócio, do Patrocínio e de Aparecida.

Ocorre em cidades litorâneas como Cananéia, Iguape, Ilhabela, Ubatuba, Guarujá, São Vicente, e em outras como Botucatu, Diadema, Pindamonhagaba, entre outras.

Romarias

As romarias são manifestações religiosas que foram trazidas pela Igreja Católica durante o processo da colonização portuguesa. Trata-se de uma peregrinação, realizado por numerosos grupos de pessoas a pé, em cavalos ou por meio de veículos, para um dado local com o intuito de rogar por graças, pagar promessas, agradecer os desejos alcançados ou apenas por motivação religiosa.

A palavra "romaria" faz referência à cidade de Roma, na Itália, onde surgiu a Igreja Católica e local da sede do Vaticano.

As romarias são organizadas em ciclos, de acordo com o dia de homenagem a algum santo ou simplesmente para pagar uma promessa. Alguns pólos de atração para as romarias são Aparecida, Iguape, Bom Jesus dos Perdões e Pirapora do Bom Jesus.

Fontes de referência e créditos

Texto desenvolvido com base nos textos do Portal do Governo do Estado de São Paulo sobre cultura e artesanato paulista, site Revelando São Paulo e os livros da Coleção Terra Paulista.

Crédito das imagens: Cavalaria de São Benedito, por Claudio Antonio Barbosa ; Corpus Christi, por Marilane Borges ; Festa de Nossa Senhora Aparecida, obtida na Wikipédia ; Folia de Reis, por Pit Thompson .

Última atualização: março de 2015