Cultura e folclore paulista: danças e folguedos

Reprodução de 'Congado' de Johann Moritz Rugendas.

A herança da cultura africana é um traço muito forte nas danças consideradas típicas em terras paulistas. Muitas dessas manifestações populares são acompanhadas por músicas e cantorias ritmadas pelo batuque, termo genérico que designa as danças e coreografias apoiadas por instrumental de percussão.

Além das danças propriamente ditas, existem os folguedos, que são manifestações coletivas que ocorrem em ruas, praças públicas, terreiros ou estádios. Os folguedos são caracterizados pelas encenações com personagens, acompanhados por danças coreografadas e música. Geralmente, são executadas em festas de homenagens a santos ou comemorações religiosas.

Cana-Verde, Ciranda, Chimarrete ou Dança do Caranguejo

Todos esses termos designam o mesmo tipo de dança. Trata-se de coreografias tradicionais, cuja origem é portuguesa, que foram difundidas em todo o Brasil, ocorrendo algumas variações em relação à dança original conforme a tradição da localidade.

Pode ser executada de forma autônoma ou integrado ao conjunto de bailados do cateretê e fandango. Os dançarinos organizam-se em círculos duplos e aos pares (damas e cavalheiros). De mãos dadas, vão girando e invertendo a ordem e os pares conforme a evolução e a música.

Ocorre principalmente no litoral paulista, mas também em várias cidades do interior.

Cavalhadas

Imagem de dois participantes de uma apresentação de cavalhada, no momento em que ocorre a reconciliação entre o rei mouro convertido e o rei cristão.

Folguedo que ocorre durante as festas do Divino e em outras festas populares.

Trazida pelos europeus durante o período colonial, representa a luta entre os cristãos e os mouros na Península Ibérica. Na forma dramatizada, formam-se dois grupos com 12 cavaleiros cada. Os cristãos vestem-se de azul e os mouros de vermelho. Todos se apresentam "armados" com espadas, garruchas e lanças, montados em seus cavalos.

Nessas encenações, os mouros sempre perdem a luta e são “convertidos”. A partir daí, são realizadas competições equestres. Há um tipo de cavalhada onde não existe mais a parte encenada. Em cidades como Franca e São Luiz do Paraitinga, a encenação ainda é preservada.

Só não se pode confundir a cavalhada com a cavalaria de São Benedito, um tipo de cortejo a cavalo em honra ao santo, cujo evento mais conhecido é o de Guaratinguetá.

Caiapó

Folguedo formado por grupos de homens fantasiados de índios com seus cocares, arcos e flechas que se apresentam na forma de uma dança-cortejo. O objetivo é realizar uma dramatização do embate entre os bandeirantes e os índios. As evoluções são comandadas pelo mestre que usa um apito.

Apesar da referência indígena, essa manifestação cultural não tem nenhuma relação com os caiapós, grupo indígena do norte do Brasil. No estado de São Paulo é representado em poucas cidades, como São José do Rio Pardo, Piracaia e Ilhabela, principalmente no período carnavalesco.

Cateretê

O cateretê, ou catira, é uma dança de sapateado derivada do antigo fandango português.

Considerada genuinamente nacional, o cateretê tem origem indígena, mas foi adaptada pelos jesuítas para ajudar no processo da catequese. Trata-se de uma espécie de sapateado brasileiro executado com "bate-pé" ao som de palmas e violas.

O formato tradicional conta apenas com a participação de homens. Com a presença feminina, são formadas duas fileirasm uma de homens e outra de mulheres, que se defrontam para apresentar cantos, sapateados, palmas, execução de saltos e formação de círculos. Os violeiros são os únicos que cantam e também interagem com a coreografia dos dançarinos.

Ocorre em festas familiares ou tradicionais como a Festa do Divino de Santa Cruz em diversas cidades paulista como, por exemplo, Ibiúna.

Congada

Apresentação de um grupo de congada.

Esse tipo de folguedo tem os seus primeiros registros datados em 1674, por manifestações populares de escravos no estado de Pernambuco.

Também chamado de congado ou congo, é comumente realizado em comunidades afro-brasileiras que prestam homenagem a São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Santa Ifigênia. Pode ser apresentado na forma de dança ou como a dramatização de lutas entre grupos, fazendo referência à África ou à luta entre cristãos e mouros.

A congada é executada ao som de cantorias, instrumentos de percussão, viola caipira, violão, cavaquinho e acordeão. Alguns associam a origem da congada às festas de coroação do Rei Congo, manifestação trazida pelos portugueses no século XV. Outros acreditam que tenha surgido nas festas dedicadas à Nossa Senhora do Rosário.

Um dos grupos de congada mais famosos, em São Paulo, é o Terno de Congada Chapéu de Fita, do município de Olímpia - cidade famosa também pelas iniciativas de preservação do folclore paulista. Os membros do grupo trajam chapéus, feitos com compridas fitas coloridas que cobrem quase o corpo todo.

Saiba mais sobre a congada no site Jangada Brasil .

Dança de Fitas

A dança de fitas, ou pau-de-fita, é bastante comum, principalmente durante o período das festas juninas. Sua origem é portuguesa.

Executa-se a dança em pares ao redor de um mastro com fitas coloridas. Os participantes formam dois grupos e fazem uma coreografia que, aos poucos, vão realizando tranças com as fitas. Da mesma forma que a quadrilha, são utilizadas peças autônomas que favoreçam um ritmo cadenciado da dança.

A dança de fitas é bastante popular em grupos de folclore em Cunha, Natividade da Serra, São Luiz do Paraitinga, Ubatuba, Taubaté, Cotia e Iguape.

Dança de Pares

As danças de pares, enlaçados ou simplesmente de mãos dadas são bastante comuns nas cidades do interior, em especial no sul do estado e Vale do Ribeira.

Muitas delas ainda guardam nítidos traços da sua origem nobre. Provenientes da corte européia, embalaram os salões da corte brasileira e continuam a animar os nossos bailes e festas populares. É assim com os tchotes (carreirinha, marcado, simples, inglês), com a mazurca (simples e de quatro), com as vaneirinhas, o caranguejo, a palminha e tantas outras.

Dança de Santa Cruz

A devoção à Santa Cruz (Cruzeiro), originalmente introduzida pelos jesuítas aos índios, fixou-se de forma significativa nas cidades da Região Metropolitana de São Paulo, Vale do Paraíba e diversas comunidades da região da Serra da Mantiqueira. A prova disso são as muito numerosas capelinhas de beira de estrada e sítios que lhe são votadas e onde acontecem as rezas e significativas festas.

A devoção se expressa com a dança de Santa Cruz que, na prática, é formada por uma sequência de danças geralmente em três grandes partes: a saudação, a roda e a despedida. A primeira e a última são consideradas sagradas e apresentam melodias que remetem à sonoridade dos cantos gregorianos, com versos fixos e temática devocional. Elas são executadas diante do cruzeiro.

Por outro lado, a roda é a parte profana da dança. Suas melodias contam com versos tradicionais e circunstanciais. Falam de amor e, por muitas vezes, remetem ao humor. Os participantes se dividem em dois semicírculos: os homens na linha de fora e as muheres na linha de dentro. Mestre e contramestre ficam nas extremidades e são responsáveis pela movimentação da "roda".

Dança de São Gonçalo

Imagem de participantes da Dança de São Gonçalo, no XI Encontro dos Povos.

A dança é realizada em devoção a São Gonçalo, sendo parte integrante da festa em sua homenagem e como forma de pagamento de promessas.

Ao som das violas do mestre e do contramestre, os dançarinos enfileiram-se aos pares e seguem em direção ao altar do santo. Depois, os participantes fazem a louvação e os pares seguem para o final da fila em movimentos para a esquerda e para a direita.

Em São Paulo, há formas distintas para executar a dança devocional: o São Gonçalo do litoral e o do interior.

A dança do litoral acontece sempre ao som de violas, rabecas, cordas em geral e caixa, todo valsado e solene, sempre executada por pares. A versão interiorana é mais compacta, não durando mais de 15 minutos, ocorrendo sempre em cumprimento da promessa no início dos bailes de sítio e fandangos.

Essa manifestação popular ocorre nos festejos de Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Capão Bonito, Capela do Alto, Jarinu, Itapeva, Joanópolis, Lagoinha, Mairiporã, Mogi das Cruzes, Natividade da Serra, Nazaré Paulista, Piracaia, Redenção da Serra, Santo Antônio do Pinhal, Ribeirão Grande, São Luís do Paraitinga, São José dos Campos, Santa Isabel e Tatuí.

Fandango

Refere-se a alguns tipos de danças de grupos cujo ponto de semelhança é o bater dos pés

Geralmente, é executado apenas por homens que calçam esporas de grandes rosetas. É executado em forma de sapateado intenso. São formadas duas alas que ficam frente a frente e os participantes executam suas evoluções acompanhadas de violas, sanfonas e pandeiros.

Existem vários grupos de fandango formados ao longo da rota do tropeirismo, como Capela do Alto, Sorocaba e Tatuí. O festival de Folclore em Olímpia também é palco de diversas apresentações de grupos. No litoral sul de São Paulo, também costuma ser a denominação para bailes de arrasta-pés. No litoral norte é chamado de chiba.

Os estilos mais conhecidos dessa dança são:

Fandango de tamancos

É executado entremeando os fortes sapateados e palmeados com os queromanas, as modas que relatam aspectos da vida rural, com possibilidades para improvisos. O acompanhamento se dá com pé de bode (sanfona de oito baixos) e/ou violas. A maior característica é o uso de tamancos de madeira de laranjeira, cujos calcanhares possuem pequenas fendas que reverberam o som do sapateado. Sua origem vem da Península Ibérica e servia de diversão nas pousadas dos tropeiros no interior paulista. Podemos ver exemplos dessa modalidade, dentro do Estado de São Paulo, em Olímpia, em Ribeirão Grande em Capão Bonito.

Fandango de chilenas

As chilenas são esporas não dentadas, atadas à botas dos tropeiros paulistas, tendo apenas a função de enfeitar o calçado e servir como instrumento de percussão, tal como um guizo, durante o sapateado. Também tem origem espanhola e era muito praticado pelos tropeiros. O sapateado é acompanhado por violas, assim como outras modalidades de fandango. A dança lembra gestos e nomes que fazem referência ao cotidiano dos tropeiros.

Jongo

O jongo é um folguedo que é apresentado, geralmente, nas festas juninas para homenagear São Benedito e comemorar o 13 de maio, data que marca a abolição da escravatura no Brasil.

O tipo de coreografia mais comum é o de roda. Um casal apresenta-se ao centro, às vezes perto de uma fogueira. Em algumas modalidades, é lançado um enigma que precisa ser desvendado pelos participantes. Durante o folguedo, são utilizados tambores, cuícas (puíta ou angoma-puíta) e chocalhos (guaiás) feitos com latas usadas ou folhas-de-flandres. As cantorias são chamadas de pontos e são puxadas por um solista, o jongueiro.

O jongo é executado em Guaratinguetá, São Luiz do Paraitinga, Pindamonhangaba, Cunha e Piquete.

Maculelê

Apresentação de um grupo de dança coreografando o estilo maculelê com vestimentas tipicamente indígenas.

Consiste numa mistura de dança, luta e jogo de bastões, fruto da mistura da cultura africana e indígena. Acredita-se que tenha evoluído do cucumbi, antigo folguedo de negros.

A dança é feita por homens, divididos entre cantadores e dançadores, todos comandados por um mestre denominado "macota". Os bastões são batidos uns nos outros em ritmo intenso e compassado. As músicas tocadas durante a apresentação são executadas com atabaques, pandeiros e violas.

Moçambique

O moçambique é uma dança-cortejo de origem afro-brasileira que utiliza bastões que é realizada em festas populares nas cidades do Vale do Paraíba.

A dança consiste em duas fileiras compostas por homens vestidos de branco e com chapéus que levam fitas ou medalhas de santos. Os participantes trazem fitas azuis ou vermelhas cruzadas no peito que representam, respectivamente, Nossa Senhora e São Benedito, além de paiás (espécie de chocalhos ou guizos) amarrados às pernas.

A dança é executada ao som de instrumentos como caixa (um tipo de tambor pequeno), viola, sanfona, violão e cavaquinho. Os bastões, além de fazerem parte do aparato, também servem para dar o ritmo. Junto aos músicos, ficam o rei e a rainha do moçambique que conduzem a bandeira do grupo.

Saiba mais sobre o moçambique no site Jangada Brasil .

Samba de Bumbo e Samba-Lenço

Essas são duas variantes do samba tradicional em São Paulo, considerados como os ancestrais do samba cosmopolita. Também conhecidos pelos nomes samba de pirapora ou samba caipira.

As danças guardam traços que os aproximam do jongo e do batuque, seus parentes próximos, e por muitos considerados como seus antecessores. O samba de bumbo tem como foco de aglutinação a Festa do Bom Jesus, na cidade de Pirapora do Bom Jesus, Região Metropolitana de São Paulo. O samba de lenço demonstra a devoção familiar do grupo a São Benedito.

Ambos apresentam letras e melodias singelas e funcionais. Algumas tradicionais, outras estruturadas de acordo com as circunstâncias. É executado, também, em festas nas cidades de Santana de Parnaíba, Campinas, Rio Claro, Sorocaba, Itu, Atibaia e Franco da Rocha.

Fontes de referência e créditos

Texto desenvolvido com base nos textos do Portal do Governo do Estado de São Paulo sobre cultura e artesanato paulista, site Revelando São Paulo e os livros da Coleção Terra Paulista.

Crédito das imagens: Reprodução de "Congado" de Johann Moritz Rugendas, por Márcio Vinícius Pinheiro ; Cavalhadas, por Renato Targa ; Congada, por Gabriela Gil ; Dança de São Gonçalo, por Jean Marconi ; Maculelê, obtido no Wikipédia .

Última atualização: março de 2015