Cultura e folclore paulista: danças e folguedos

 

Reprodução de 'Congado' de Johann Moritz Rugendas.

Congada, obra de Johann Moritz Rugendas
[Márcio Pinheiro / CC BY-NC-ND 2.0]

 

Origens

Historicamente, as expressões culturais mais tradicionais do Estado de São Paulo possuem origem em três matrizes socioculturais: a indígena, a portuguesa e a africana.

Dos portugueses, herdamos os costumes e folias com características mais religiosas. Como exemplo, podemos citar as danças executadas nas celebrações de festas juninas e festas do Divino Espírito Santo.

A herança da cultura africana é um traço muito forte nas danças consideradas típicas em terras paulistas. Muitas dessas manifestações populares são acompanhadas por músicas e cantorias ritmadas pelo batuque, termo genérico que designa as danças e coreografias apoiadas por instrumental de percussão.

Em relação à cultura indígena, sua presença é mais discreta. Há indícios dessa influência em algumas danças e folguedos, como o catira e cururu. Alguns historiadores consideram essas práticas como adaptações de danças nativas, derivadas das práticas culturais ainda do tempo em que os jesuítas realizavam o trabalho de catequese dos povos indígenas.

 

Diferenças entre danças e folguedos

As danças folclóricas são expressões populares, desenvolvidas em conjunto ou individualmente. São caracterizadas por se situarem dentro da cultura espontânea, informal e popular. Elas são aprendidas pela observação e imitação direta, pela repetição ou pela tradição, sem a intervenção da cultura erudita e sem a direção de coreógrafos.

Por outro lado, os folguedos são manifestações coletivas que ocorrem em ruas, praças públicas, terreiros ou estádios. São caracterizados pelas encenações com personagens, acompanhados por danças coreografadas e música. Em geral, os folguedos são executadas em festas de homenagens aos santos e outras celebrações religiosas.

 

Cavalhadas

 

Imagem de dois participantes de uma apresentação de cavalhada, no momento em que ocorre a reconciliação entre o rei mouro convertido e o rei cristão.

Conciliação da Cavalhada, em São Luís do Paraitinga
[Renato Targa / CC BY-NC-SA 2.0]

 

As cavalhadas são folguedos que ocorrem durante as festas do Divino e outras festas populares. Importadas pelos europeus durante o período colonial, representam a luta entre os cristãos e os mouros na Península Ibérica.

Para realizar a dramatização, são formados dois grupos com 12 cavaleiros cada. Os cristãos se vestem de azul e os mouros de vermelho. Todos se apresentam "armados" com espadas, garruchas e lanças montados em seus cavalos. Nessas encenações, os mouros sempre perdem a luta e são “convertidos”.

O evento é concluído com diversas competições equestres, confraternização entre os participantes e fogos de artifício.

Nas cidades de Igaratá e Santa Isabel, as cavalhadas enfocam os jogos equestres e não trazem mais a parte encenada. Por outro lado, em cidades como Franca, Guararema e São Luiz do Paraitinga, a encenação do embate entre cristãos e mouros ainda é preservada.

 

Caiapó

Esse folguedo é realizado por grupos de homens fantasiados de índios com seus tradicionais cocares, arcos e flechas. A apresentação é feita na forma de uma dança-cortejo.

Ao som de instrumentos musicais de percussão, a dramatização mostra o embate entre os bandeirantes e os índios. As evoluções são comandadas pelo mestre que comanda os demais participantes com um apito.

No Estado de São Paulo, o caiapó é realizado nas cidades de São José do Rio Pardo, Piracaia e Ilhabela, principalmente no período do Carnaval.

Apesar da forte referência indígena, essa manifestação cultural não tem nenhuma relação com os caiapós, um grupo indígena do norte do Brasil.

 

Catira ou cateretê

A principal característica da catira é a dança ritmada pelo sapateado e batidas de mãos dos participantes.

Sua origem é muito incerta. Derivada do antigo fandango português, alguns historiadores afirmam que foi adaptada pelos jesuítas para ajudar no processo da catequese dos indígenas, ainda no século XVI.

Aos poucos, a catira se tornou uma manifestação genuinamente brasileira devido às influências de diversas culturas.

Essa dança apresenta um sapateado executado com um bate-pé acompanhando por palmas e violas. No seu formato tradicional, conta apenas com a participação masculina. Atualmente, muitos grupos são compostos por homens e mulheres.

A catira é executada em duas fileiras, uma de homens e outra de mulheres, que se defrontam para apresentar cantos, sapateados, palmas, execução de saltos e formação de círculos. Os violeiros são os únicos que cantam e também interagem com a coreografia dos dançarinos.

Ocorre em festas familiares ou tradicionais, como a Festa do Divino de Santa Cruz, em diversas cidades paulistas.

 

Ciranda

Ciranda, cana-verde, chimarrete, chimarrita ou dança do caranguejo.

Todos esses termos designam o mesmo tipo de dança. De origem portuguesa, a ciranda possui uma coreografia muito tradicional que se disseminou em todo o Brasil. Conforme a tradição regional, pode ocorrer algumas variações.

A ciranda pode ser executada sozinha ou integrada a um conjunto de danças do cateretê e fandango. As pessoas que participam da dança se organizam em círculos duplos e aos pares (damas e cavalheiros). De mãos dadas, vão girando e invertendo a ordem e os pares conforme a evolução da música.

Muito presente nas festividades folclóricas do litoral paulista, também ocorre em várias cidades do interior de São Paulo.

 

Congada

 

Apresentação de um grupo de congada.

Congada em Mogi das Cruzes
[Gabriela Gil / CC BY-NC-SA 2.0]

 

Esse folguedo nasceu de manifestações populares de escravos, no Estado de Pernambuco. Seus primeiros registros datam de 1674.

Conhecida também como congado ou congo, a congada é realizada, principalmente, em comunidades afro-brasileiras para prestar homenagem às figuras de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Santa Ifigênia. Alguns pesquisadores associam essa manifestação às festas de coroação do Rei Congo, manifestação trazida pelos portugueses no século XV. Outros afirmam que foi adaptada para as festas dedicadas à Nossa Senhora do Rosário.

A congada é apresentada na forma de dança ou dramatização de lutas entre grupos. Há fortes referências aos elementos da África e representam a luta entre cristãos e mouros. Sua execução é feita ao som de cantorias, instrumentos de percussão, viola caipira, violão, cavaquinho e acordeão.

Em São Paulo, o Terno de Congada Chapéu de Fita, do município de Olímpia, é um dos grupos de congada mais famosos. Aliás, a cidade é famosa pelo seu Festival de Folclore. Os membros do grupo trajam chapéus adornadas com compridas fitas coloridas que cobrem quase o corpo todo.

 

Dança de fitas

A dança de fitas, ou pau-de-fita, ocorre com frequência nas festas juninas. Sua origem é portuguesa.

A dança é executada em pares ao redor de um mastro com fitas coloridas. Os participantes são organizados em dois grupos que fazem coreografias com o objetivo de trançar as fitas. Da mesma forma que a quadrilha, são utilizadas peças autônomas que favoreçam um ritmo mais cadenciado.

Essa dança é bastante popular em grupos de folclore das cidades de Cunha, Natividade da Serra, São Luiz do Paraitinga, Ubatuba, Taubaté, Cotia e Iguape.

 

Dança de Pares

As danças de pares, enlaçados ou simplesmente de mãos dadas são comuns em cidades do interior paulista, em especial na região sul e Vale do Ribeira.

Muitas delas ainda guardam traços característicos da sua origem nobre. Provenientes da corte européia, embalaram os salões da corte brasileira.

Hoje, continuam a animar os nossos bailes e festas populares. É assim com os tchotes (carreirinha, marcado, simples, inglês), mazurca, vaneirinhas, caranguejo, palminha e outras variações.

 

Dança de Santa Cruz

Originalmente introduzida pelos jesuítas aos índios, a devoção à Santa Cruz se consagrou de forma significativa nas cidades da Região Metropolitana de São Paulo, Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira. Como prova disso, encontramos inúmeras capelinhas de beira de estrada e sítios onde acontecem as rezas e festas.

Nesse ritual, a devoção por Santa Cruz se expressa em forma de dança. A coreografia é composta de três grandes partes: a saudação, a roda e a despedida. A primeira e a última parte são consideradas sagradas e apresentam melodias que remetem à sonoridade dos cantos gregorianos, com versos fixos e temática devocional. Elas são executadas diante do cruzeiro.

Por outro lado, a roda é a parte profana da dança. Suas melodias contam com versos tradicionais e circunstanciais. Falam de amor e, por muitas vezes, remetem ao humor.

Os participantes da dança se dividem em dois semicírculos: os homens na linha de fora e as muheres na linha de dentro. Mestre e contramestre ficam nas extremidades e são responsáveis pela movimentação da "roda".

 

Dança de São Gonçalo

A dança é realizada em devoção ao São Gonçalo, um santo português canonizado em 1561, como parte integrante da festa em sua homenagem e forma de pagamento de promessas.

Ao som das violas do mestre e contramestre, os dançarinos ficam em fileiras aos pares. Cada par segue em direção ao altar do santo, fazem a louvação e voltam para o final da fila em movimentos para a esquerda e direita.

 

Imagem de participantes da Dança de São Gonçalo, no XI Encontro dos Povos.

Dança de São Gonçalo
[Jean Marconi / CC BY-NC-SA 2.0]

 

Em São Paulo, há duas formas de executar a dança de São Gonçalo:

  • No litoral, a dança acontece sempre ao som de violas, rabecas, cordas em geral e caixa, todo valsado e solene, sempre executada por pares.
  • A versão do interior paulista é mais compacta (até 15 minutos de duração). É realizada com o sentido de agradecer às promessas atendidas no início dos bailes.

 

A dança de São Gonçalo ocorre nas cidades de Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Capão Bonito, Capela do Alto, Jarinu, Itapeva, Joanópolis, Lagoinha, Mairiporã, Mogi das Cruzes, Natividade da Serra, Nazaré Paulista, Piracaia, Redenção da Serra, Santo Antônio do Pinhal, Ribeirão Grande, São Luís do Paraitinga, São José dos Campos, Santa Isabel e Tatuí.

 

Fandango

O fandando se refere a algumas modalidades de dança em grupos. Sua principal característica é o bailado acompanhado com o bater de pés (sapateio). Sua origem é espanhola.

Geralmente, participam apenas homens que calçam esporas com grandes rosetas. A dança lembra um sapateado intenso. São formadas duas alas que ficam frente a frente e os participantes executam suas evoluções acompanhadas de violas, sanfonas e pandeiros.

Existem vários grupos de fandango formados ao longo da rota do tropeirismo, como Capela do Alto, Sorocaba e Tatuí. No litoral sul de São Paulo, o fandango costuma ser a denominação para bailes de arrasta-pés. No litoral norte, é chamado de xiba.

 

Basicamente, há dois estilos de fandango:

  • O fandango de tamancos é executado entremeando os fortes sapateados e palmeados com os queromanas, as modas que relatam aspectos da vida rural, com possibilidades para improvisos. O acompanhamento se dá com pé de bode (sanfona de oito baixos) e/ou violas.

    A maior característica é o uso de tamancos de madeira de laranjeira, cujos calcanhares possuem pequenas fendas que reverberam o som do sapateado. Veio da Península Ibérica para o Brasil como uma forma de diversão nas pousadas dos tropeiros no interior paulista.

    Podemos ver exemplos dessa modalidade, dentro do Estado de São Paulo, em Olímpia, em Ribeirão Grande em Capão Bonito.

  • O fandango de chilenas é executado com esporas não dentadas, atadas à botas dos tropeiros paulistas, tendo apenas a função de enfeitar o calçado e servir como instrumento de percussão, tal como um guizo, durante o sapateado. O sapateado é acompanhado por violas, assim como outras modalidades de fandango. A dança lembra gestos e nomes que fazem referência ao cotidiano dos tropeiros.

 

Jongo

O jongo é um folguedo muito popular nos festejos juninos. É uma forma de homenagem ao São Benedito e celebração do 13 de maio, data que marca a abolição da escravatura no Brasil.

O tipo de coreografia mais comum no jongo é o de roda.

Um casal se apresenta ao centro, de preferência próximo à fogueira da festa junina. Em algumas modalidades, é lançado um enigma que precisa ser desvendado pelos participantes.

Para acompanhar a apresentação, são utilizados tambores, cuícas (puíta ou angoma-puíta) e chocalhos (guaiás) feitos com latas usadas ou folhas-de-flandres. As cantorias são chamadas de pontos e são puxadas por um solista, o jongueiro.

O jongo é popular em grupos folclóricos de Guaratinguetá, São Luiz do Paraitinga, Pindamonhangaba, Cunha e Piquete.

 

Maculelê

 

Apresentação de um grupo de dança coreografando o estilo maculelê com vestimentas tipicamente indígenas.

Apresentação de maculelê com vestimentas indígenas
[Wikipédia / CC BY-SA 2.0]

 

O maculelê consiste numa mistura de dança, luta e jogo de bastões, fruto da mistura da cultura africana e indígena. Acredita-se que forte ligação com a prática do cucumbi, antigo folguedo praticado por homens e mulheres negras nos dias de Carnaval, no fim do século XIX.

A dança é feita por homens, divididos entre cantadores e dançadores, todos comandados por um mestre denominado "macota". Os bastões são batidos uns nos outros em ritmo intenso e compassado. As músicas tocadas durante a apresentação são executadas com atabaques, pandeiros e violas.

 

Moçambique

O moçambique é uma dança-cortejo de origem africana que utiliza bastões. Esse folguedo é muito popular nas cidades do Litoral Norte, Vale do Paraíba e região Noroeste de São Paulo.

A dança é realizada em duas fileiras compostas por homens vestidos de branco e chapéus que levam fitas ou medalhas de santos. Os participantes trazem fitas azuis ou vermelhas cruzadas no peito que representam, respectivamente, Nossa Senhora e São Benedito, além de paiás (espécie de chocalhos ou guizos) amarrados às pernas.

A dança é executada ao som de instrumentos como caixa (um tipo de tambor pequeno), viola, sanfona, violão e cavaquinho. Os bastões, além de fazerem parte do aparato, também servem para dar o ritmo.

Junto aos músicos, ficam o rei e a rainha do moçambique que são responsáveis pela condução da bandeira do grupo.

 

Samba de Bumbo e Samba de Lenço

Essas são duas variantes do samba tradicional de São Paulo e são considerados os ancestrais do samba cosmopolita. Também conhecidos pelos nomes samba de pirapora ou samba caipira.

Essas danças possuem traços que os aproximam do jongo e batuque, considerados por muitos seus antecessores. Ambos apresentam letras e melodias singelas e funcionais. Algumas são mais tradicionais, enquanto que outras são mais estruturadas de acordo com as circunstâncias.

 

Conheça as características de cada samba:

  • O samba de bumbo é realizado na Festa do Bom Jesus, na cidade de Pirapora do Bom Jesus, Região Metropolitana de São Paulo.
  • O samba de lenço é um ritmo de origem africana. É realizada para demonstrar a devoção familiar do grupo folclórico para São Benedito. Os instrumentos de percussão utilizados são o pandeiro, caixas, bumbo, chocalho e zabumba. Como o próprio nome da dança indica, os participantes utilizam lenços como enfeite.

 


FONTES CONSULTADAS (6)

  • Biblioteca de Ritmos
  • Livros da coleção Terra Paulista
  • Patrimônio Imaterial da Cultura Paulista
  • Portal de Folclore de Olímpia
  • Revelando São Paulo
  • Wikipédia

 

Página atualizada em novembro de 2020

A imagem mostra um boneco vermelho com cara de confuso

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