Cultura e folclore paulista: brincadeiras e brinquedos

Imagem de crianças brincando.

Numa época em que, aparentemente, as crianças abandonaram as ruas e os espaços abertos para ficarem mais tempo no interior das suas casas, atraídas pela televisão, as redes sociais e os videogames, as brincadeiras “analógicas”, por assim dizer, ainda perduram e resistem aos avanços tecnológicos. Cantigas, rodas, corridas, saltos e outras brincadeiras à moda antiga ainda são flagradas em regiões afastadas dos grandes centros urbanos e nas periferias, em escolas, clubes e centros culturais.

As brincadeiras tradicionais evidenciam as diferentes formas de manifestação popular de uma região ou de um país. Isso acontece porque, assim como outros produtos culturais, elas recebem a influência dos traços étnicos e regionais que formam a cultura brasileira. Basicamente, as brincadeiras populares no Brasil representam a mistura dos costumes e das crenças do branco (europeu), do índio e do africano.

Mais recentemente, com a influência dos povos que imigraram para o país nos séculos XIX e XX, como os japoneses e italianos, a coletânea de brinquedos e brincadeiras populares, em especial no estado de São Paulo, ganhou ares multiculturais.

Adoletá

Os participantes se reúnem numa roda, ou em duplas, e começam a intercalar as mãos (a mão direita de uma criança sobre a esquerda da outra) enquanto cantam:

"Adoletá
Le peti
Peti polá
Le café com chocolá
Adoletá
Puxa o rabo do tatu
Quem saiu foi tú!"

Dinâmica da brincadeira

  • Cada jogador deve "passar a palma" para a criança ao lado até chegar na letra 'u'.
  • Quem receber o último tapa na mão no final da canção, é eliminada.
  • Vence o jogo quando sobrar uma única criança.

Origens

A brincadeira veio junto com os imigrantes franceses como podemos observar em alguns palavras adaptadas ao nosso idioma - por exemplo, "le petit" virou "le peti". Conforme a região, a música pode ser diferente.

Amarelinha

Representação do jogo de amarelinha com uma boneca feito de papel.

Há uma variação muito grande nos modos de brincar a amarelinha, tanto em tipos de traçado (em quadrados que formam um traçado retangular, indo do “céu” ao “inferno”; em caracol; em quadrado; etc.), como na maneira de pular as casas. O que é comum em todas elas é pular em um pé e usar uma pedrinha para demarcar as casas.

Dinâmica da brincadeira

  • Para começar é preciso desenhar um caminho em formato de caracol (espiral) no chão e dividi-lo em várias partes. Em alguns lugares, a amarelinha é desenhada em formato retangular.
  • O jogador tem que fazer todo o trajeto pulando com um pé só. O objetivo é alcançar a casa do "céu". Somente nessa casa é permitido colocar os dois pés no chão.
  • Depois de chegar ao fim, a criança volta até o início. Da mesma forma, a criança deve fazer o caminho saltando as casas com apenas um pé no chão.
  • Quem conseguir ir e voltar sem pisar em nenhuma linha, pode escolher uma das casas e fazer um desenho ali. A partir de então, somente esse jogador poderá pisar nela.

Origens

É uma das brincadeira mais antigas e conhecidas do mundo.

Em Portugal, é conhecida como jogo da macaca, jogar, saltar à macaca, jogo-do-homem e pé-coxinho. Em Moçambique, chama-se avião ou neca. Na Espanha, é chamada de cuadrillo, infernáculo, reina mora, pata coja ou rayuela. No Chile, chama-se luche. Na Colômbia, é conhecida como coroza ou golosa. Nos Estados Unidos, esse jogo é o hopscotch. Na Galiza, uma comunidade independente ao norte da Espanha, o jogo tem vários nomes: chapa, truco, mariola, peletre, cotelo, macaca, estrícula, entre outros.

É da França que trouxemos o nome amarelinha, pois ali o jogo é chamado de “marelle”. O termo em francês associou-se à cor amarela e deu origem ao nome brasileiro.

No Brasil, a brincadeira é conhecida por uma grande variedade de termos: academia (RN, PB e PE), avião (AL e RJ), boneca (PI), cancão (MA), macacão (SE), macaco (BA), pula-pula (PB), amarelinha (SP e RJ), maré (RJ e RS), quadrinhos (PB), queimei (SC), sapata (RS), casco (RJ), amarelas (RJ e MG), casa de boneca (CE), céu e inferno (PB e PR), macaca (AC, PA, AP, CE, RS e PI). Ainda que hoje a sua prática esteja muito reduzida, tempos atrás se jogou em mais de 40 desenhos diferentes.

Caçapinha

Há vários tipos de jogos que utilizam bolinhas de gude, onde variam as regras, o número de participantes e o jeito de jogar. Este jogo é chamado de caçapinha e, segundo o Mapa de Brincar , teve origem no município paulista de Itápolis.

Dinâmica da brincadeira

  • Com uma colher, os participantes fazem seis buracos na terra. Os buracos (caçapinhas) ficam na forma de um "L", com uma distância de quatro palmos de um para o outro.
  • Os jogadores têm que acertar as bolinhas de gude nas caçapinhas na ordem em que elas estão.
  • Ganha quem acertar mais buracos ou quem mais se aproximar deles - a dica é medir com a palma da mão. O vencedor ganha uma bolinha.

Origens

A origem das bolinhas de gude é incerta. Há registros de brincadeiras na antiguidade que utilizavam nozes, sementes e pedras. As primeiras bolinhas de vidro teriam surgido na Roma antiga.

No Brasil, as bolinhas trazidas pelos portugueses foram apelidadas “de gude” em referência ao nome das pedras redondas e lisas retiradas dos leitos dos rios. No interior do país, o jogo recebeu uma dezena de nomes diferentes, tais como baleba, bilosca, birosca, bolita, fubeca, entre outras.

Dentro, fora

Para brincar esse jogo, é necessário ter um elástico e três participantes: dois seguram o elástico e o terceiro pula. O elástico geralmente começa no tornozelo, depois sobe para o joelho, para a coxa e para o quadril. Algumas crianças pulam com o elástico na altura dos ombros e da cabeça.

Cada vez que o participante acerta a sequência toda, o elástico sobe. Passa do tornozelo para o joelho, por exemplo.

Quem errar passa a vez para o outro participante.

Dinâmica da brincadeira

  • Enquanto pula, o participante canta "dentro / fora / dentro / pisou / saiu / rodou".
  • Ao dizer cada uma das palavras, pula com os dois pés para dentro e, depois, com os dois pés para fora, um para cada lado do elástico.
  • Na palavra "pisou", é preciso pisar com os dois pés em cima das linhas.
  • Na última palavra "rodou", salta para fora e dá meia-volta, ficando com pés paralelos de frente para o elástico.

Origens

As brincadeiras que envolvem elásticos remontam à Idade Média. Aliás, o elástico faz parte do conjunto de brincadeiras de pular. Na Grécia e Roma antigas, pular corda era um comportamento muito utilizado para celebrar a chegada das novas estações.

Escravos de Jó

A cantiga dessa brincadeira é muito popular em todo o país. Trata-se de um jogo simples de roda onde as crianças passam um objeto de mão em mão enquanto cantam:

Escravos de Jó, jogavam caxangá
Tira, bota, deixa ficar...
Guerreiros com guerreiros
Fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros
Fazem zigue zigue zá

Dinâmica da brincadeira

  • As crianças são organizadas em roda. Em pé ou sentadas, elas passam o "caxangá" (pode ser qualquer objeto, como uma pedrinha ou bolinha de pano, por exemplo).
  • Ao ritmo da música, a criança da direita passa o objeto na mão da criança da esquerda.
  • Quem perder o ritmo (ficar com o objeto na mão ao término da música), vai para a "roça" - fica no meio da roda. A última criança que sobrar vence a brincadeira.

Origens

Sua origem é incerta. Há quem diga que a brincadeira tem origem africana. Outros dizem que é uma brincadeira indígena pelo fato de que o caxangá é um termo do tupi-guarani que se refere a uma espécie de crustáceo. Alguns historiadores creditam a sua origem à imagem de "juntar" os caxangás, uma tarefa comum dos escravos no período colonial. Ao longo do tempo, o "juntavam" o caxangá se transformou em "jogavam".

Jogo de bola de gude

Bolinhas de gude.

O conhecido jogo de bolinhas feitas de vidro é tradicional em todo o Brasil. De acordo com a Wikipédia , o jogo é conhecido também como burquinha, berlinde, biloca, bolita, boleba, búraca, bate, cabiçulinha, fubeca, piripiri, peteca e bolíndri, entre outros nomes.

Dinâmica da brincadeira

O formato do jogo pode variar conforme a região. O modelo mais tradicional é jogado da seguinte forma:

  • Faz-se um buraco no chão de terra - essa é a fossa ou poça.
  • O objetivo é arremessar a bolinha para tentar acertar o buraco. Quem acerta, tem o direito de lançar a sua bolinha e acertar as outras. As bolinhas "tecadas" (atingidas) são conquistadas.
  • O jogador que não acertar o buraco ou errar na sua tentativa de "tecar" as bolinhas, passa a vez para o próximo jogador.
  • Vence a partida quem conquistar todas as bolinhas.

Origens

As bolinhas de gude são muito mais antigas do que muitos imaginam. Há registros do jogo utilizando nozes, sementes de frutas e pedras de formato arredondado desde a antiguidade.

Com o passar do tempo, novos materiais foram empregados na fabricação das bolinhas: aço, argila, pedras, plástico e vidro. Ao que parece, as bolinhas feitas de vidro se tornaram populares e chegaram ao Brasil por meio dos portugueses. O nome "gude" é uma referência as pedras redondas e lisas encontradas nos leitos dos rios.

Jogo de taco

O jogo de taco, conhecido também como tacobol, bets e bete-ombro, foi bastante popular nas ruas brasileiras que tem descendência no críquete britânico. O jogo é feito com bastões (os tacos), dois alvos (garrafas, latas ou pedaços de madeira em forma de tripé) e uma bolinha (que pode ser feita com meias enroladas, borracha ou mesmo uma bolinha de tênis).

Dinâmica da brincadeira

  • Para jogar, é necessário quatro jogadores: dois ficam na posição de rebatedores (com o taco) e os outros dois na posição de lançadores.
  • Os rebatedores ficam posicionados em frente ao alvo sempre com o "taco no chão". O objetivo deles é defender o alvo e acertar a bola lançada para os mais longe que for possível.
  • Os lançadores, por sua vez, tem o papel de derrubar o alvo. Para isso, eles devem lançar a bola do campo oposto (o lançador não pode ultrapassar a linha do alvo) ou, quando o rebatedor não estiver com o taco posicionado na sua área "base", derrubar o alvo do seu lado de campo e ganhar os tacos (nesse caso, rebatores trocam de posição com os lançadores).
  • Para marcar um ponto, o rebatedor tem que acertar a bola e cruzar o campo trocando de alvo com o rebatedor do campo oposto (é necessário tocar os tacos no meio do campo para validar o ponto).
  • Vence a dupla que marcar o maior número de pontos (geralmente, o jogo termina em 10 pontos).

Origens

Há diferentes versões para a origem do jogo de taco.

Uma versão diz que o jogo foi criado por jangadeiros brasileiros, durante o século XVIII. Outra versão conta que foi trazido pelos ingleses que praticavam o taco nos porões dos navios durante sua longa jornada entre a Europa e o Brasil.

Para saber mais sobre as regras do jogo de taco e suas variações, acesse o artigo no site Anos 80 com informações completas e vídeos.

Pedra, papel e tesoura

Esse é um jogo recreativo utilizado, frequentemente, como método de seleção em outros jogos, esportes ou disputas - como jogar dados ou lançar uma moeda no cara ou coroa, por exemplo.

Dinâmica da brincadeira

  • Com as mãos para trás, dois ou mais participantes escolhem um dos três símbolos: pedra (mão fechada), papel (mão aberta) e tesoura (usando em formato de "V" os dedos médio e indicador).
  • Ao mesmo tempo, os jogadores devem mostrar as mãos com o símbolo escolhido.
  • A sistemática para ver quem ganha e quem perde segue a seguinte lógica: pedra "quebra" a tesoura, mas perde do papel (quem a "embrulha"); papel ganha da pedra, mas perde para a tesoura (que o "corta"); tesoura ganha do papel, mas perde para a pedra. Se todos tirarem o mesmo símbolo, ocorre um empate.
  • Ganha quem vencer mais rodadas (numa melhor de três ou de cinco) ou quem sobrar (se houver vários participantes jogando ao mesmo tempo).

Origens

A brincadeira tem origem chinesa e foi levada ao Japão, provavelmente no século XVII, onde ganhou o nome de "Jan-ken-po". A definição do termo pode ter algumas variações em relação ao seu significado, mas de maneira geral traduz-se da seguinte forma: "janken" vem de "jakuken", ou "punho de pedra", e "pon" que pode ser entendido como "decisão".

No Brasil, o jogo foi importado com os imigrantes japoneses e virou "joquempô".

Queimada

Esse é um jogo de pique (corridas e perseguições) em que os participantes devem usar uma bola para atingir os companheiros.

Dinâmica da brincadeira

  • Os participantes são divididos em dois grupos iguais, que ficam cada um de um lado do campo. O objetivo de cada um é "queimar" os integrantes do time adversário, acertando um a um com a bola até que não sobre ninguém.
  • Os times tiram a sorte (par ou ímpar, bola ao ar etc.) para decidir quem começa. Um dos jogadores fica com a bola. Ele tem direito a um arremesso de dentro de seu território (o limite é a linha central), e os adversários podem se afastar o máximo que conseguirem, sem sair dos limites de sua área.
  • Se a bola não atingir ninguém e sair rolando pelo chão, um jogador do outro time pode pegá-la e atirá-la em direção ao pessoal do time adversário – sem sair do ponto onde a pegou. Ele só pode andar com a bola se pegá-la no ar.
  • É queimado quem for acertado e deixar a bola cair no chão. Essas pessoas viram “prisioneiros” dos adversários e têm que sair da área de seu time e ir para a “prisão” (também chamada de “cemitério”), uma faixa que fica depois da linha de fundo do outro time.
  • Os queimados continuam jogando, só que com menos liberdade. Eles só podem pegar a bola se ela cair dentro da prisão. De lá, podem tentar acertar os adversários ou passar a bola para seus companheiros de time, arremessando longe o suficiente para que ela caia dentro do campo deles.
  • Os prisioneiros têm apenas uma chance de voltar a jogar na área de seu time: se na primeira vez que pegarem a bola na prisão conseguirem queimar um adversário.
  • Ganha o time que conseguir o maior número de prisioneiros dentro do tempo estipulado (que não é fixo) ou que conseguir queimar todos os adversários.

Origens

A origem do jogo não é tão bem definida. Alguns dizem que ele teria se originado na China, outros dizem que sua origem ocorreu no Egito. Nos EUA, o seu nome é Dodgeball e é praticado como esporte, onde são realizadas competições oficiais. Já no Brasil, a queimada é uma prática mais difundida nas escolas e nas ruas, como forma de recreação.

Os nomes dados ao jogo aqui também variam bastante: Baleada ou Queimada (Paraíba); bola queimada (Paraná); caçado (Paraná e Rio Grande do Sul); mata-mata (Santa Catarina); queimado (Pernambuco); carimba (Ceará); carimbada (Uberlândia).

Fontes de referência e créditos

Texto desenvolvido com base em conteúdos pesquisados no Portal do Professor , do Ministério da Educação; no Mapa do Brincar , da Folha de São Paulo; nos artigos do Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos - LABRIMP ; e nos especiais Jogos e Brincadeiras e Brincadeiras Regionais da Revista Nova Escola.

Crédito das imagens: Crianças brincando, por Roberto Vinicius ; Amarelinha, por Adrien Leguay ; Jogo de bola de gude, por Wikipédia .

Última atualização: março de 2015