Cultura e folclore paulista: artesanato

 

Entrada do festival Revelando São Paulo, evento que reúne produtores de artesanato paulista.

Entrada do festival Revelando São Paulo [por amigos da arte]

 

Alguns conceitos

A produção de artesanato surge com a necessidade do ser humano em suprir certas demandas por artefatos e ferramentas que possam ajudá-lo nos seus afazeres do cotidiano.

Assim, ao longo do tempo foram desenvolvidas técnicas para a produção de cerâmicas para o armazenamento de alimentos e líquidos, a tecelagem para a produção de peças de vestuário, o entalhe em madeira para criar móveis e ornamentos e tantos outras áreas de produção artesanal.

Outros aspectos importantes do artesanato, além da necessidade prática de um objeto, é a disponibilidade de recursos naturais que permitam a sua produção e o imaginário coletivo e individual que concedem traços únicos aos objetos produzidos.

Artesanato, trabalho manual e arte popular

Para entender mais sobre esse tópico, é importante diferenciar artesanato do trabalho manual.

Conforme Portaria da Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades - SUTACO, de 14/03/1995, o artesanato é o artefato que apresenta mais de 80% de trabalho das mãos do artesão, com ou sem auxílio de instrumentos rudimentares, na transformação de matéria-prima bruta, normalmente comum em sua região de origem, em produto acabado e com reflexos claros da cultura local.

Por sua vez, o trabalho manual é aquele tenha, no mínimo, 60% de trabalho manual aplicado à peça e reproduzido a partir de fórmulas e receitas de domínio público com materiais geralmente industrializados, sem traços culturais peculiares e que, justamente por isso são mais fáceis de serem encontrados, tais como crochê, tricô, bordado, etc.

Ainda existe o conceito de arte popular. Essa é a manifestação pessoal de artistas do povo, sem instrução acadêmica, que exprimem sua realidade e sua imaginação em peças decorativas únicas.

Então, quando queremos falar sobre o artesanato ou arte popular típicos de São Paulo, devemos pensar nas expressões mais tradicionais e genuínas do Estado. Ao olhar para o artesanato paulista, é importante perceber a influência da cultura do europeu, dos nativos indígenas e, por algumas vezes, também do imigrante de outros países.

 

Produtos feitos com a técnica do crochê.

Produtos em crochê [Revelando São Paulo]

 

Características do artesanato paulista

O Estado de São Paulo desenvolveu um artesanato típico e peculiar, produzido basicamente com matéria-prima fornecida pela floresta tropical. Misturando técnicas trazidas pelo colonizador europeu com as desenvolvidas pelos indígenas e negros e enriquecendo-se com a curiosa contribuição cultural das diferentes populações de migrantes e imigrantes.

A intensa industrialização tem dado lugar a um novo tipo de artesanato, o artesanato urbano, em que resíduos industriais são reciclados pelas mãos dos artesãos, transformando-se em objetos singulares.

Algumas regiões mantêm seu artesanato tradicional, como Apiaí, no Vale do Ribeira, com sua cerâmica rústica, figurativa, utilitária e decorativa de grande valor histórico, cultural e econômico; o Vale do Paraíba, com os trançados de fibras vegetais, os entalhes de madeira, a cerâmica de origem silvícola e a de alta temperatura, de influência oriental.

No litoral é marcante o artesanato indígena, produzido por remanescentes dos guaranis, especialmente a cestaria de cipó, bambu e taboa e os artefatos de caça, pesca, adorno e instrumentos musicais, que combinam a utilização de madeiras, fibras, cabaças e outros materiais.

Outras manifestações do artesanato paulista podem ser encontradas em feiras semanais na Capital, no Interior, no Litoral, com destaque para a da Praça da República, da Liberdade e a do Embu.

 

Artefatos de casca de laranja e bagaço de cana de açúcar

Região: Araraquara

 

Até o início dos anos 2000, Araraquara não possuía um produto artesanal típico que caracterizasse a região.

A Secretaria da Cultura, em parceria com o SEBRAE-SP, promoveu um concurso para estimular a criatividade dos artesãos locais. Os vencedores foram o casal Rosa Maria Alves e Dalvo Rodrigues Alves, que desenvolveram produtos à base de casca de laranja e bagaço de cana, abundantes na região. Araraquara é um dos maiores exportadores de suco de laranja do país e também é forte produtora canavieira. A partir daí, foi criado um grupo para desenvolver os trabalhos com os artefatos.

A técnica empregada molda o objeto da forma pretendida. Depois, são aplicados desenhos por pirografia (gravação realizada com ferramenta que utiliza calor).

 

Artesanato em cobre

Região: Vale do Paraíba

 

O Vale do Paraíba era passagem obrigatória para os tropeiros, no século 18, por estar localizado entre Minas Gerais e Rio de Janeiro, trajeto que conduzia o ouro (e, depois, o açúcar e o café) do primeiro para os portos do segundo.

Ao longo dos caminhos formavam-se diversas vilas, que serviam como locais de pousadas para os viajantes. Por essa razão, nessas vilas concentravam-se muitos prestadores de serviço, entre eles os artesãos de cobre.

Esse material era amplamente utilizado em tachos, panelas, alambiques e outros utilitários, em razão de ser menos sujeito à oxidação e mais fácil de limpar do que o ferro.

Devido à complexidade da técnica de manufatura e da concorrência dos objetos industrializados, a atividade tem ficado cada vez mais rara.

 

Bicos de papel e tocos

Região: Pirapora do Bom Jesus

 

A tradição da romaria de Bom Jesus de Pirapora, evento religioso que atrai multidões de fiéis todos os anos, é o responsável pela origem dessa técnica de artesanato.

Conta a história que a população mais pobre não tinha condições financeiras para utilizar as rendas, muito caras e nobres, na ornamentação de oratórios e janelas das suas casas, local de passagem das romarias. Assim sendo, aos poucos essa população foi improvisando com os bicos de papel que possuem efeito estético semelhante ao das rendas, porém financeiramente mais acessível.

Da mesma forma, os romeiros mais pobres e movidos pela fé improvisaram os tocos, galhos mortos de árvores que eram decorados e utilizados para transportar as velas das romarias.

 

Cerâmica dos figureiros

Região: Taubaté

 

Os tradicionais pavões criados pelos figureiros de Taubaté.

Pavões dos figureiros de Taubaté [por amigos da arte]

 

As figuras de pavões e galinhas desse grupo têm origem na cultura de produção de presépios dos franciscanos do Convento de Santa Clara, em Taubaté, no século XVII. Com o tempo, os artesãos passaram a inserir elementos da cultura local, como outros animais da região.

Hoje, as peças de argila produzidas pelos artesãos locais, os "figureiros", são amplamente conhecidas em todo o Brasil e no exterior.

A história do pavão, figura mais conhecida desse tipo de artesanato, surgiu em 1979, quando a SUTACO realizou um concurso para escolher o símbolo do artesanato paulista. O trabalho selecionado foi o pavão azul de Maria Cândida Alves Santos. Desde 1994, a Casa do Figureiro tem sido o local onde o trabalho dos artesãos locais expõem e vendem suas peças.

Para mais informações, acesse o site oficial do grupo de Figureiros de Taubaté e assista ao vídeo da TV Câmara de Taubaté sobre esse artesanato.

 

Cerâmica noborigama

Região: Cunha

 

Originalmente, o artesanato mais conhecido da cidade de Cunha é a cerâmica produzida pelas "paneleiras" cuja técnica foi herdade de tradições indígenas.

Mas, em 1975, com a chegada dos casais de artistas plásticos Toshiyuki e Mieko Ukeseki e Alberto Cidraes e Maria Estrela à cidade de Cunha, isso mudou. Eles trouxeram a técnica oriental de cerâmica de alta temperatura, conhecida como noborigama. Em pouco tempo, outros artesãos aderiram aos pioneiros orientais, o que levou a espalhar a reputação da qualidade da cerâmica local para o exterior.

A técnica noborigama foi criada ao final da Dinastia Tang, na China. Os fornos para a queima da cerâmica são dispostos em desnível e são interligados, produzindo efeitos estéticos diferentes conforme a exposição das peças à temperatura.

No século XVI, essa técnica chegou ao Japão onde foi aperfeiçoada. O termo "noborigama" significa "forno sobre rampa" ou "forno que sobe".

 

Cerâmicas

Região: Litoral Sul, Vale do Paranapanema, Vale do Paraíba e Vale do Ribeira

 

A produção de cerâmica artesanal em São Paulo espalha-se por diversas regiões do estado. Embora as cerâmicas apresentem traços e desenhos locais, todas elas compartilham uma característica em comum: a sua origem indígena. São panelas, vasilhas, potes, garrafas, moringas, utensílios domésticos e outros itens que são produzidos por meio de técnicas que são passadas de geração para geração de artesãos paulistas.

Em Iguape, destaca-se a louça preta produzida pelo Núcleo Comunitário do Jairê. As peças são modeladas em forma especial. Uma vez queimados e secos, são banhados, ainda quentes, em um cozimento de entrecasca de nhacatirão. Esse processo torna a cerâmica preta e impermeável a ponto de assemelhar-se muito a uma peça de ferro.

Para mais informações, acesse as páginas do Revelando São Paulo e da Rota da Cerâmica do Vale do Ribeira.

 

Crochê de barbante

Região: Bananal

 

A palavra crochê vem do francês "crochet" e significa gancho - referindo-se ao formato curvado da agulha utilizada nessa técnica de artesanato. Apesar do nome francês, não se sabe exatamente o local de origem da técnica.

Na Idade Média, as peças feitas em crochê já eram apreciadas em boa parte da Europa. Com os portugueses, o crochê chegou ao Brasil e, assim como nas terras lusitanas, se tornou muito popular.

Na cidade de Bananal, o crochê ganhou uma característica especial: o uso do barbante como matéria-prima. A técnica criada por Dona Laurinha, moradora dessa cidade do Vale do Paraíba, tornou-se uma referência. Na década de 1970, o crochê de barbante empregava 200 pessoas, tornando a cidade polo produtor e exportador de peças.

 

Cestas feitas com fios trançados.

Cestaria [Revelando São Paulo]

 

Esculturas de madeira do Mestre Ditinho Joana

Região: São Bento do Sapucaí

 

As obras de madeira esculpida do Mestre Ditinho se tornaram tão famosas que sua casa se tornou parte do roteiro turístico da cidade, localizada na região da Serra da Mantiqueira. Ele desenvolve o artesanato desde 1974 e os traços dados às suas criações tornam o seu trabalho mais autêntico e único.

O tema maior da sua obra é a gente da roça em seu cotidiano de trabalho árduo e as marcas deixadas por ele. As imagens expressam a força do universo caboclo, com um misto de serenidade, nobreza e vigor.

Conheça mais esse artesanato no site do ateliê do Mestre Ditinho e na página no Facebook.

 

Panô de ponto ajur

Região: São Carlos

 

Artesanato muito popular na cidade de São Carlos, a técnica é o encontro de várias técnicas de costura manual. Visa reunir retalhos de juta com retalhos de tecido, costurados pelo ponto de bordado ajur.

No Brasil, a ideia desse tipo de trabalho surgiu com os escravos que usavam os sacos de juta para ensacar café, quando danificados, para confeccionar suas roupas, fazendo o arremate com sisal.

Em fins do século XIX e início do XX, os imigrantes italianos, que aqui chegaram, aperfeiçoaram a técnica de aproveitamento de retalhos de sacos de juta, arrematados por esse tipo de bordado, para fazer peças de cama e mesa (os industrializados eram mais caros e mais raros de serem encontrados em áreas rurais).

 

Uma mesa cheia de esculturas de imagens religiosas.

Figuras religiosas [por amigos da arte]

 

Pássaros entalhados em madeira

Região: Silveiras

 

Assim como outras cidades do Vale do Paraíba, Silveiras sofreu com o declínio econômico após o desaquecimento do grande período cafeeiro na região, situação que se prolongou até meados do século XX. Na década de 1970, artesãos trouxeram do litoral norte a técnica de produção de esculturas esculpidas em caixeta, uma espécie de árvore que fornece uma madeira leve e macia ideal para o artesanato.

Inspirada na fauna local, os artesãos de Silveiras passaram a esculpir pássaros. Aos poucos, essas peças tornaram-se um grande sucesso de vendas, motivando mais artesãos a adotar a técnica numa das cidades símbolos do tropeirismo.

 

Revestimento de capim amargoso

Região: Cajobi

 

Por conta da grande quantidade de uma planta rejeitada pelo gado (considerada uma praga na região), a criatividade dos artesãos de Cajobi proporcionou a produção de um tipo de artesanato único. Com o capim amargoso, são produzidas peças por meio de técnicas transpostas do ponto cruz, uma característica única do artesanato paulista.

O desenvolvimento desse artesanato é atribuído à artesã Delfina Ribeiro Marcelo. Em meados de 2001, ela começou a criar imagens, a partir da técnica do ponto cruz de bordado, que eram transferidas para telas que eram recobertas por esse capim.

Inicialmente, as imagens eram pintadas, mas como essa prática escondia a beleza natural da fibra, com o tempo, a cor natural e as formas geométricas passaram a ser ressaltadas em diversos objetos como quadrinhos e bandejas.

 

Trançado de taboa

Região: Potim

 

A cidade de Potim, no Vale do Paraíba, é famosa pelos utilitários e peças feitas com a fibra da taboa, uma planta típica de regiões úmidas como os brejos. A técnica é uma herança direta dos indígenas, aliada a influências europeias, e possibilita a produção de uma infinidade de objetos pessoais e para a casa, como cestas, sacolas e arapucas.

 

Trançados diversos

Região: Vale do Paraíba e Litoral

 

Utilizando cipós das áreas remanescentes da Mata Atlântica, como a timbopeva, imbé e taquara, artesãos produzem cestos, balaios, apás (usado para peneirar cereais), peneiras, adornos, covos (armadilha para pesca) e outras peças e utensílios domésticos.

 

 

Trançado estrela

Região: Olímpia

 

A palha do milho, produto abundante na região de São José do Rio Preto, é a matéria-prima dessa técnica. Derivado de técnicas indígenas, o trançado permite a confecção de uma trama em formato de estrela. O processo é extremamente trabalhosos - uma única peça pode consumir um dia de trabalho do artesão.

Por um bom tempo, a produção do trançado estrela esteve praticamente extinto e, para se ter uma ideia, as únicas peças remanescentes constavam apenas do acervo do Museu de História e Folclore “Maria Olímpia”. A retomada dessa técnica se deu no início dos anos 2000, com o grupo de Trançado Estrela, cujo trabalho vem ganhando notoriedade dentro e fora do país.

 


FONTES CONSULTADAS (3)

  • Livros da coleção Terra Paulista
  • Revelando São Paulo
  • Wikipédia

 

Página atualizada em outubro de 2020

A imagem mostra um boneco vermelho com cara de confuso

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