Biblioteca Virtual
Envie sua mensagem para a Biblioteca Virtual
Fale Conosco
Conheça a Biblioteca Virtual e saiba o que podemos fazer por você
Quem Somos

Especial: HISTÓRIAS EM QUADRINHOS [10/2011]

Tamanho do texto   A A A

Índice desse especial
O Menino Amarelo e as primeiras HQs
E chegam os aventureiros e os heróis
A era dos super poderes
O Comic Code e a censura aos quadrinhos
E os quadrinhos crescem e aparecem
Os mangás japoneses
Os quadrinhos no Brasil
História em quadrinhos na educação
Entrevista com Waldomiro Vergueiro
Gibitecas de São Paulo
Vídeos sobre história em quadrinhos

Nos EUA são conhecidos como “comics”; na França são “bandes dessinées”; em Portugal são “bandas desenhadas”; no Japão são “mangás”; na Itália são “fumetti” e aqui, no Brasil, podem ser gibis, revistas em quadrinhos, quadrinhos, histórias em quadrinhos ou, simplesmente, HQs. Não importa como sejam chamadas, as HQs apresentam uma estética inconfundível, reconhecida em todos os cantos do mundo, por pessoas de todas as idades e níveis de escolaridade.

Por muito tempo, elas foram alvo de preconceito e foram encaradas como leitura de “baixa qualidade”. Com o tempo, elas foram ganhando respeito e mais espaço e, também, sendo incorporadas por outras áreas e mídias (na própria literatura, nas artes plásticas, na publicidade, no cinema, etc.).

Em outubro de 2007, a Biblioteca Virtual publicou um especial sobre o livro e a leitura, lembrando a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, que ocorre de 23 a 29, sempre no mês de outubro. Agora retomamos o tema da leitura, mas de um outro tipo: a da história em quadrinhos. Falamos um pouco sobre a sua história e como ela pode ser utilizada como ferramenta no ensino.

 

 

O Menino Amarelo e as primeiras HQs

Oficialmente, as histórias em quadrinhos surgiram no finalzinho do século 19, com uma tirinha ilustrada chamada “Down on Hogan´s Alley”, criada pelo desenhista Richard Felton Outcault. Mais tarde, ela ficou conhecida como “The Yellow Kid” (O Menino Amarelo), por conta da personagem principal, um garoto careca, dentuço, sempre metido num camisolão amarelo, cujo nome era Mickey Dugan. Ele vivia em uma vila, nos subúrbios de Nova York, em meio a personagens que sintetizavam as figuras típicas do gueto e a diversidade étnica que começava a se juntar ao panorama social e cultural dos EUA. Seu cabelo era raspado, para evitar piolhos, assim como as demais crianças daquela época e daquele contexto social. Sua camisola não era sua, das de uma de suas irmãs mais velhas.

A historinha aparecia esporadicamente na revista Truth, entre 1894 a 1894. Estreou oficialmente no jornal New York World em 17 de fevereiro de 1895 (data, então, do surgimento das histórias em quadrinhos), em preto em branco. Em maio do mesmo ano, começou a circular em cores.

O que faz Yellow Kid ser considerada a primeira história em quadrinhos do mundo? Histórias ilustradas eram muito comuns nos periódicos (mesmo muito antes de Yellow Kid), porém eram simplesmente textos narrativos ilustrados. Yellow Kid trouxe elementos novos que, indiscutivelmente, tornaram as histórias em quadrinhos inconfundíveis: os balões e os textos em primeira pessoa. Apesar dos dizeres do menino amarelo aparecerem no seu camisolão, as falas das demais personagens apareciam em balões.

Em pouco tempo, a imagem de Yellow Kid começou a se popularizar e estampar botões, cigarros, charutos, bolachas, cartões postais, brinquedos, entre outros mil produtos. De repente, em 1898, Outcault parou de escrever as histórias; talvez porque tenha se cansado delas ou pelo fato de não conseguir ter o seu controle comercial.

As primeiras HQs eram histórias completas em uma única página, publicadas nos suplementos dominicais do começo do século 20. O formato em tiras surgiu em razão do pouco espaço disponível nas publicações. Tudo tinha de ser contado, no máximo, em três quadros. Em pouco tempo, as histórias começaram a extrapolar os três quadros e passaram a apresentar continuações nas edições seguintes, o que contribuía para prender a atenção dos leitores. Tempos depois, muitas histórias saíam dos jornais para habitar as revistas e gibis próprios.

No início, as histórias eram essencialmente humorísticas. Vem daí o nome genérico para os quadrinhos, em inglês: “comics” (cômicos). Basicamente eram infantis (sobre travessuras de crianças e animais) ou adultas (mais escrachadas). Aliás, não havia problemas em exibir um humor mais grosseiro e muita crítica de costumes. Alguns exemplos dos quadrinhos do início do século 20: Little Nemo (1905); Mutt & Jeff (1907); Krazy Kat (1913); Popeye (1929) e Mickey Mouse (apareceu pela primeira vez em formato de animação em 1928 e em uma tira de jornal em 1930).

 

 

E chegam os aventureiros e os heróis

Em 1929, a Bolsa de Valores de Nova York quebrou, causando uma crise econômica devastadora, iniciada nos EUA e alastrada pelo mundo. Era a chamada Grande Depressão que se estenderia por toda a década de 1930. Toda essa situação produziria um leitor mais interessado em olhar para longe do que para próximo de si mesmo. Por essa razão, na década de 30, três gêneros se sobressaíam: a ficção científica, o policial e as aventuras (sobretudo na selva e em paisagens distantes e exóticas).

No mesmo ano do crack da Bolsa, foi lançado o Captain Easy (Capitão César, no Brasil), pelas mãos do desenhista Roy Crane. Na verdade, o capitão surgiu a partir de uma tira cômica chamada Wash Tubbs (Tubinho, no Brasil), cujo protagonista era um baixinho chamado Tubbs. De repente, a história humorística virou história de aventura; o protagonista passou a ser outro e o traço, que antes caricato, ganhou ares mais realistas. Crane foi o primeiro a utilizar de forma eficiente os ganchos entre os episódios, de modo a chamar a atenção do leitor para a próxima aventura, em tramas mais longas. Foi ele quem delineou o que seria o padrão das histórias de aventura que viriam a seguir.

As Aventuras de Tintin, criada pelo belga Georges Prosper Remi (mais conhecido como Hergé) em 1929, é um clássico do gênero de aventura. O protagonista é Tintim, jovem repórter e viajante belga, sempre acompanhado pelo seu cão Milu. Diferentemente de Crane, Hergé concebeu um traço mais humorístico e de apelo infantil às suas histórias.

Um modelo que fez muito sucesso, nesse período de vacas magras, foi o das revistas pulp (ou pulp fiction), existentes desde o início do século 20. Eram revistas feitas com papel de baixa qualidade (daí vem a “polpa” do seu nome), mais voltadas às histórias de fantasia e ficção científica mais populares. Geralmente, era desenhado por autores marginais e editores mais preocupados em não quebrar. O formato das pulps deu origem a várias histórias e personagens que seriam famosos mais tarde.

Exemplos de alguns desses sucessos: Buck Rogers (criado em 1928 e o primeiro herói espacial dos quadrinhos), Flash Gordon (de 1934), Dick Tracy (de 1931), Fantasma (de 1936), Mandrake (de 1934), Tarzan (de 1929), Príncipe Valente (de 1937, por Hal Foster que também foi o criador de Tarzan), entre outros. Aliás, o Príncipe Valente foi um marco, pois não se utilizava de balões (o texto aparecia em uma legenda, embaixo dos quadrinhos); mostrava um apuro histórico muito grande e a história de seu protagonista era acompanhada desde a infância até a sua velhice, como qualquer outro ser humano (algo incomum aos demais heróis dos quadrinhos).

 

 

A era dos super poderes

Em 1938, surge o primeiro super-herói com identidade secreta: Superman. Ele foi criado pela dupla Joe Shuster e Jerry Siegel, em 1933, mas só conseguiu ser publicado, na revista Action Comics, cinco anos depois quando os criadores venderam seus direitos à DC Comics. A demora na publicação da história se deve ao fato de ter sido recusada por diversos editores, pois estes alegavam que o público não acreditaria num personagem tão poderoso. Se eles soubessem do sucesso que ele faria no futuro... Superman é considerado o início da era de ouro dos quadrinhos.

A partir daí, nasceram diversos heróis com super poderes: Namor, o Príncipe Submarino (de 1939), que tinha o poder de voar e respirar debaixo d´água; Tocha Humana (de 1939), um andróide que se inflamava em contato com oxigênio; Capitão Marvel (publicado pela primeira vez em 1940), cuja real identidade era de um jovem repórter de rádio - chamado Billy Batson - que ,quando gritava “Shazam!” (o nome do mago que o agraciou), transformava-se em um super-herói. Batman (publicado pela primeira vez em 1939) era um caso à parte. Não tinha nenhum poder sobre-humano, mas contava com sua inteligência, sua boa forma física, tecnologia avançada (seu cinto de utilidades e o Batmóvel são alguns exemplos) e dinheiro suficiente para bancar tudo isso.

No período de 1940 até 1945 foram criados aproximadamente 400 super-heróis, mas nem todos sobreviveram. É importante lembrar que as HQs tornaram-se armas ideológicas durante a II Guerra Mundial. O maior exemplo disso é o Capitão América, de 1941. Transformado em um supersoldado por um experimento científico dos EUA, um jovem franzino de saúde frágil torna-se o herói que conseguiria salvar o mundo dos nazistas e, de quebra, dar um soco em Hitler. A Mulher Maravilha também foi criada nesse período (1941). Ela era a princesa das amazonas e foi ao “mundo dos homens” para espalhar uma missão de paz e lutar contra Ares, o deus da guerra.

Um destaque à parte desse período é a criação consagrada de Will Eisner, The Spirit, publicado pela primeira vez em 1941. Trata-se da história de um detetive mascarado chamado Denny Colt. Herói sem poderes, Colt era extremamente humano e as histórias passavam por vários gênerios: policial, misterio, comédia, romance, etc. A série se destacou pela inovação dos enquadramentos quase cinematográficos, os efeitos de luz e sombra e as inovadoras técnicas narrativas, além da qualidade do roteiro e da arte.

 

 

O Comic Code e a censura aos quadrinhos

A ascensão que as HQs experimentaram nos anos 40 sofreu um baque nos anos seguintes. Em 1954, o Comics Code (Código dos Quadrinhos) foi criado pela própria Comics Magazine Association of America (Associação Americana de Revistas em Quadrinhos) - entidade formada pelas editoras de quadrinhos dos EUA - por pressão do Congresso, da Igreja e da mídia sensacionalista, que viam as HQs como maléficas à infância e à juventude.

Essa acusação tinha origem na campanha moralista que o psiquiatra Frederic Wertham promovia com seu livro Sedução do Inocente, que afirmava que as histórias estimulavam a sexualização precoce, a delinquência juvenil e prejudicavam a boa formação moral. O código impunha um controle rígido do conteúdo dos quadrinhos, desde a escolha de cores, temas e palavras; limitando ao extremo a liberdade criativa dos autores. As história aprovadas deveriam exibir um selo na capa. O alvo maior eram os quadrinhos policiais, de terror e de temática sexual.

O código vigorou por um longo tempo, mas foi perdendo força aos poucos. Durante os anos 70, influenciado pela contracultura, surgem os quadrinhos underground, sendo um dos destaques o artista Robert Crumb, criador de Fritz, o Gato, como uma resposta ao controle moralista da grande indústria.

 

 

E os quadrinhos crescem e aparecem

É na década de 50, também, que apareceram as primeiras tiras de Peanuts, de Charles M. Schulz, cuja personagem principal é o garoto Charlie Brown, junto do seu cão Snoopy. Apesar da aparência infantil, esta tira marcou o começo da era intelectual dos quadrinhos, com uma maior valorização do texto sobre as imagens. Mafalda (1965), criada pelo argentino Quino, também é apenas uma criança, mas possui uma aguçada visão de mundo.

A década de 1960 trouxe uma renovação ao universo dos quadrinhos Marvel. Grande parte foi trazida pelas mãos de Stan Lee, criador de O Quarteto Fantástico; Homem de Ferro; Hulk; Thor; X-Men; Homem Aranha, entre outros. A diferença entre os heróis anteriores e os de Lee era que estes têm características mais humanas. Eles não são perfeitos, cometem erros e passam por conflitos psicológicos.

A partir dos anos 80, os estadunidenses criaram a “graphic novel” (ou romance gráfico) direcionado para o público adulto, com nuances de atmosferas sombrias, violência, sensualidade e dúvidas existenciais (como o Batman de Frank Miller, Watchmen, Sandman). Os anos 90 consolidaram essa tendência mais adulta e foram palco da popularização dos mangás japoneses no Ocidente.

As HQs deixaram de serem consideradas um mero entretenimento barato de crianças e jovens (o que era um preconceito, pois os quadrinhos adultos sempre existiram), conseguindo atingir altos níveis artísticos e de narrativa que superam, até mesmo, outras formas de expressão. Talvez, o grande exemplo seja a graphic novel Maus, do estadunidense Art Spiegelman, que em 1992 foi agraciada com o Prêmio Pulitzer (voltado à literatura, jornalismo e música). A história mostra o Holocausto com tintas biográficas e retrata judeus como ratos e alemães nazistas como gatos. Um dos méritos foi o seu humor ácido, mas muito inteligente.

 

 

Os mangás japoneses


Banca de mangás

Para os ocidentais, o mangá representa um estilo de HQ, vindo do Japão que, basicamente se caracteriza pelas personagens de olhos muito grandes e brilhantes; pela representação exagerada de sentimentos como, por exemplo, raiva (nervos saltando da testa, etc.), vergonha e constrangimento (gotas de água no rosto ou encolhimento súbito da personagem); pelos cabelos não-convencionais (com formatos e cores diferentes); pela linguagem visual baseada no cinema; pela diagramação mais solta, entre outros elementos. Percebe-se uma distinção de rótulos quando certos surgem “versões em estilo mangá” de quadrinhos consagrados (como é o caso da Luluzinha e da Turma da Mônica teen).

Para os japoneses, no entanto, o mangá é o nome dado a qualquer HQ, independentemente de estilo ou tipo. Aliás, os mangás não são focados somente nas crianças e jovens; pessoas de todas as idades e perfis lêem mangás. Além da função de entreter, os mangás desenvolvem, também, uma função educativa, pois são utilizados nas escolas e em tutoriais de diversos temas (culinária, tecnologia, etc.). E há histórias de todos os tipos e segmentos, que podem ser classificados como: “shounen” - para meninos; “shojo” - para meninas; “gekigá” - voltada para os adultos, com tramas mais densas e psicológicas; “seinen” - para o público adulto masculino, na faixa dos 20 aos 40 anos; “josei” - para mulheres jovens e adultas. A imagem estereotipada da personagem estilizada de grandes olhos não corresponde a todos os mangás, pois muitos (sobretudo os mais adultos) apresentam traços mais realistas.

O mangá, que é quase uma instituição japonesa, corresponde a quase 40% dos livros e revistas vendidos no Japão. Isso pode ter como explicação o antigo apetite por arte visual dos japoneses, comprovada pelos rolos de pintura (emakimono) que contavam histórias misturando ilustrações e textos, existentes desde o século 8 d.C.). O formato atual do mangá surgiu no início do século 20, sob influência de revistas vindas do Ocidente.

Osamu Tezuka não foi o primeiro mangaká (desenhista de mangá), mas foi o que delineou o mangá moderno. Considerado o “deus do mangá”, ele “importou” a linguagem do cinema para o papel - com mais dinamismo e ação, e criou a imagem dos olhos grandes e cabelos espetados. Além disso, inventou onomatopeias, linhas de movimento e recursos gráficos para aumentar a dramaticidade das cenas. Além da contribuição visual, as histórias de Tezuka viraram clássicos por trazerem temas profundos, como a valorização da vida e o alerta sobre as consequências da intolerância e do avanço científico sem controle. Também foi um dos precursores da animação japonesa (animê), fundando seu próprio estúdio em 1961.

Suas principais histórias são: Kimba, O Leão Branco (1950); Astro Boy (1952); A Princesa e o Cavaleiro (1953).

 

 

Os quadrinhos no Brasil

A origem das HQs brasileiras veio da vertente humorística da imprensa (cartuns, charges e caricaturas) do século 19. Considera-se que um dos precursores dos quadrinhos e da charge política, no Brasil, seja o italiano Angelo Agostini. As personagens eram desenhadas de corpo inteiro e a narrativa era descrita em legendas. Alguns de suas personagens mais populares eram "Zé Caipora" e Nhô-Quin".

A primeira revista em quadrinhos brasileira foi O Tico Tico, lançada em 1905. Ela publicava histórias originais de autores brasileiros e estrangeiros, além de versões brazucas de personagens de fora. Em 1939, era publicada a revista O Gibi, cujo nome virou sinônimo de revista em quadrinhos no Brasil.

Por muito tempo os quadrinistas brasileiros sentiram resistência por parte dos editores, que davam preferência às histórias importadas. Uma alternativa para vencer tal resistência era partir para um trabalho independente como fez Carlos Zéfiro, que publicou - durante as décadas de 1950 a 1970, histórias eróticas conhecidas como “catecismos”. Aos poucos a resistência às histórias originais brasileiras foi sendo quebrada. Em 1960, por exemplo, foi lançada A Turma do Pererê, com texto e ilustrações de Ziraldo, também autor de O Menino Maluquinho. Nos anos 60 também surgiram diversos super-heróis brasileiros, mesmo que muito inspirados nos consagradados estrangeiros, como o Capitão 7 (mistura de Flash Gordon e Super-Homem).

Com o advento do regime militar no Brasil, os quadrinhos também sofreram uma onda de repressão semelhante ao que houve nos EUA, com a Comic Code. O humor foi um traço de resistência à ditadura e gerou um grande número de revistas importantes que passaram a representar o humorismo brasileiro. O pioneiro foi o Pasquim (1969 - 1991), grande crítico do regime militar. Ao longo do tempo, vimos o aparecimento de importantes cartunistas, muitos ligado à linha da crítica política e social, tais como Henfil, Jaguar, Luiz Gê, Paulo e Chico Caruso, Laerte, Glauco, Angeli, entre muitos outros.

No que se refere às HQs voltadas ao público infantil e juvenil brasileiras, não se pode deixar de dar destaque ao trabalho de Maurício de Souza, cujo repertório de histórias e personagens (encabeçadas pela Turma da Mônica) acabam entretendo e emocionando todas as faixas etárias. A primeira personagem foi o cãozinho Bidu, cuja primeira tira foi publicada em 1959. Aos poucos, o resto da turminha foi aparecendo e tornando-se um sucesso editorial e comercial, com centenas de produtos licenciados.

 

 

História em quadrinhos na educação

Por muito acreditou-se que as histórias em quadrinhos eram uma subliteratura, de baixa qualidade, que apenas servia para desviar as crianças e os jovens de uma leitura “mais séria” e comprometida com a educação. Além disso, também foram responsabilizadas por deturpar a mente dos jovens e estimular todo o tipo de violência e perversão. O estabelecimento do Comic Code nos EUA talvez tenha sido o maior exemplo de preconceito aos quadrinhos. Com o passar do tempo, essa visão estereotipada e enganosa foi sendo dissipada, na medida em que as HQs foram sendo reconhecidas, não somente como entretenimento, mas também forma de transmissão de conhecimentos específicos e como ferramentas educacionais.

As primeiras revistas de caráter educacional foram publicadas ainda em 1940, nos EUA. Elas traziam histórias sobre personagens famosos da história, figuras literárias e eventos históricos. Com o tempo, outras publicações semelhantes em outras temáticas (histórias religiosas, versões de clássicos da literatura, etc.) também foram sendo publicadas no mundo todo. Elas também foram meio de instrução eficiente. Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o desenhista Will Eisner ajudou o Departamento de Defesa dos EUA a elaborar manuais de treinamento das tropas em formato de quadrinhos. Os mangás japoneses são um ótimo exemplo no que se refere à utilização dos quadrinhos como meio educacional, pois no Japão eles não são considerados apenas uma leitura para os mais jovens e tampouco somente para lazer.

Aos poucos, a linguagem das histórias em quadrinhos também foi sendo incorporada aos livros didáticos e a própria leitura de HQs foi sendo incluída nas atividades didáticas dos professores. Órgãos oficiais de educação de muitos países (incluindo o Brasil) passaram a reconhecer a importância das histórias em quadrinhos nos currículos escolares.

O professor e pesquisador da USP, Waldomiro Vergueiro - que, inclusive, é o nosso entrevistado neste especial - elenca em seu artigo “Uso das HQs no ensino”, publicado no livro “Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula”, algumas das vantagens em utilizar as HQs no ensino:

- Os estudantes gostam de ler quadrinhos. Eles não os rejeitam pois já fazem parte de seu cotidiano;
- Palavras e imagens, juntos, ensinam de forma mais eficiente;
- Existe um alto nível de informação nos quadrinhos. Eles versam sobre os mais diferentes temas, sendo aplicáveis em qualquer área;
- As possibilidades de comunicação são enriquecidas pela familiaridade com as histórias em quadrinhos;
- Os quadrinhos auxiliam no desenvolvimento do hábito de leitura. A familiaridade da leitura dos quadrinhos facilita a leitura de outros suportes, como revistas e livros;
- Os quadrinhos enriquecem o vocabulário dos estudantes. Ao mesmo tempo que eles são escritos em linguagem de fácil entendimento; eles apresentam assuntos variados e novas expressões e palavras aos jovens leitores, aumentando seu vocabulário;
- Os quadrinhos têm um caráter globalizador. Elas conseguem ser compreendidas por estudantes de qualquer contexto e nível;
- Os quadrinhos podem ser utilizados em qualquer nível escolar e com qualquer tema. Como as histórias são muito variadas, é possível para o professor identificar quais os materiais mais adequados à sua turma e à sua faixa etária.

Vergueiro também ressalta que os professores precisam atentar para certos fatores na hora de escolher uma HQ para trabalhar com seus alunos: dispor de um texto que não traga erros gramaticais; escolher um tema capaz de despertar e manter o interesse do grupo; selecionar um material que corresponda às necessidades da disciplina a ser ensinada e com qualidade gráfica adequada ao uso pretendido. É importante, também, que o professor tenha familiaridade com as HQs, com a sua linguagem e sua evolução histórica, a fim de alcançar melhores resultados no processo de ensino e aprendizagem.

 

 

Entrevista com Waldomiro Vergueiro

Waldomiro Vergueiro é doutor e mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde atua como professor titular do Departamento de Biblioteconomia e Documentação. Possui pós-doutorado pela Loughborough University of Technology (Inglaterra).

Além de se dedicar ao ensino e pesquisa em Biblioteconomia, Waldomiro Vergueiro trabalha com sua grande paixão de infância: os quadrinhos. Ministra aulas sobre HQs, coordena o Observatório de História em Quadrinhos, na ECA-USP; e é autor de livros e artigos sobre o uso dos quadrinhos na educação. É membro do corpo editorial da International Journal of Comic Art .

 

1 - O que o fez optar por pesquisar as HQs academicamente e transformá-las em seu objeto de trabalho?

Eu sempre gostei de histórias em quadrinhos. Mesmo antes de começar a ler elas me atraíam. Talvez fosse o colorido das revistas, o ritmo em que as histórias eram contadas, os personagens curiosos, o fato de elas serem consideradas coisa meio que proibida em minha infância, sei lá. Só sei que, à medida que comecei a aprender a ler, mais elas foram me encantando. Desde pequeno, comecei também a colecionar quadrinhos e daí não parei mais. Esta predileção, eu diria até mesmo paixão pelos quadrinhos foi, em última instância, o que me levou a trabalhar com eles academicamente. Nesse aspecto, posso dizer que sou um privilegiado, pois tive a felicidade de poder me dedicar aos quadrinhos profissionalmente, como professor e pesquisador. O conhecimento das particularidades do meio me levou a entender os benefícios da leitura dos quadrinhos e quanto eles são desvalorizados, ao mesmo tempo em que sempre aproximou cada vez mais do meio.

 

2 - Por que as HQs causam tanto fascínio? Qual a sua contribuição para a história da cultura e da comunicação?

As histórias em quadrinhos são a mídia que mais marcou o século XX, função que partilha com as produções cinematográficas. Em termos de comunicação, elas tiveram um impacto inigualável, sendo uma mídia globalizadora e globalizante, trazendo conteúdos hegemônicos e despertando reações diversas, tanto políticas como sociais. Ainda hoje, elementos da linguagem quadrinhística podem ser encontrados nos mais variados meios de comunicação, como programas de televisão, outdoors, revistas, jogos de videogame, etc. Além disso, os quadrinhos têm uma forma de contar que é própria deles, que nenhum outro meio consegue replicar. Nos quadrinhos, parte da narrativa é passada graficamente, enquanto o restante precisa ser imaginado pelo leitor, ocorre no espaço entre um quadrinho e outro. Isto faz o cérebro do leitor funcionar de um jeito que outros meios não fazem. Este é um motivo do fascínio. A linguagem dos quadrinhos buscou elementos em várias outras linguagens, como a do cinema, a teatral, a da ilustração, o humor gráfico, que a individualizaram e enriqueceram. De outro lado, vários gêneros se desenvolveram no ambiente quadrinhístico que fizeram com que seu alcance praticamente não tivesse limites. As histórias de super-heróis, gênero tão característico das revistas de histórias em quadrinhos, foram a primeira mídia a reconhecer o público infanto-juvenil como seu consumidor privilegiado e desenvolveram personagens emblemáticos, que depois foram aproveitados e continuam a ser aproveitados em outras mídias, ampliando o seu impacto nos leitores. De certa forma, eles representam a retomada, para o ambiente da modernidade, das narrativas mitológicas que tanto fascinaram nossos antepassados.

 

3 - Antigamente, os quadrinhos eram vistos com preconceito, como coisa de crianças ou de desocupados. Hoje, a sua imagem é outra: são cultuados e mais respeitados; recebem edições de luxo e muitos adultos não escondem sua adoração por eles. O que propiciou essa mudança de imagem das HQs ao longo do tempo?

A importância das histórias em quadrinhos, no meu ponto de vista, está no fato de elas serem tanto um meio de comunicação de massa de grande popularidade como de conterem uma linguagem forte e sofisticada, que permite tratar de muitos assuntos diferentes, de acordo com a necessidade do artista. Trata-se de um meio de comunicação que atinge milhões de pessoas no mundo inteiro, que tem uma indústria forte e que exerce influência sobre outras mídias. E é uma linguagem que tem características próprias e desenvolveu recursos que apenas nos quadrinhos são aplicados dessa maneira. Não existem mais dúvidas sobre o papel das histórias em quadrinhos em relação a despertar o interesse pela leitura, por exemplo. Várias pesquisas já demonstraram isso e a simples observação ou conversas informais tanto com leitores de quadrinhos ou com muitos outros que foram leitores durante grande parte de sua vida mostra como a leitura de quadrinhos abriu espaço para uma variedade muito grande de leituras, tanto as relacionadas com a palavra impressa – livros, revistas, jornais, etc. – como aquelas relacionadas a outras mídias – cinema, televisão, teatro, música, internet e muitas outras. Esse aspecto, digamos assim, instrumental das histórias em quadrinhos é o que tem chamado a atenção das autoridades responsáveis pela distribuição de obras às escolas brasileiras, por exemplo. É claro que isso é muito importante e concorreu bastante para mudar a visão da sociedade sobre a 9ª Arte. Mas penso que os quadrinhos, ou, melhor dizendo, a força das histórias em quadrinhos está não somente no fato de hoje serem vistas apenas como um instrumento para algo mais e sim, principalmente, por representarem uma forma de linguagem e uma mídia rica em si mesma, capaz de despertar sensibilidades, de ampliar horizontes e levar o pensamento e a imaginação a lugares, espaços temáticos e ambientes imaginários que outras mídias não têm condições de alcançar. Os têm muito a contribuir no processo de desenvolvimento do imaginário individual e coletivo e nisso estão sua força e seu fascínio.

 

4 - Os quadrinhos têm sido utilizados nas atividades de ensino de, praticamente, todos os níveis escolares (da pré-escola ao ensino médio). O que se deve verificar, em termos de cuidados e planejamento, para que a atividade seja eficaz do ponto de vista educativo?

Eu acredito que as histórias em quadrinhos podem ser utilizadas em todas as séries, em todas as disciplinas, para todos os públicos e idades. Não vejo limites para o uso das histórias em quadrinhos em ambiente didático, a não ser o da imaginação dos professores e o do interesse (ou desinteresse) dos alunos. Nada nos quadrinhos existe que impeça sua utilização em qualquer espaço didático. Atualmente, a maior dificuldade para que os quadrinhos sejam utilizados em atividades de ensino está, principalmente, no desconhecimento dos professores sobre as histórias em quadrinhos e seu potencial didático. Depois disso teríamos questões como preconceito, falta de apoio institucional, dificuldade para desenvolver projetos conjuntos, problemas de utilização dos quadrinhos como forma de os professores ficarem ociosos, etc.

 

 

Gibitecas de São Paulo

Em todas as gibitecas a entrada é franca.

 

Gibiteca Henfil (Centro Cultural São Paulo)
Endereço: Rua Vergueiro, 1000 - Paraíso - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3397-4090
Horário de funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 20h; sábados, domingos e feriados (exceto Carnaval e Páscoa), das 10h às 18h.
A entrada é permitida até 30 minutos antes do fechamento.
E-mail: gibiteca@prefeitura.sp.gov.br

 

Gibiteca da Biblioteca Monteiro Lobato
Endereço: Rua General Jardim, 485 - Vila Buarque - 01223-011 - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3256-4122
Horário: 2ª a 6ª feiras das 8h às 18h, sábados das 10h às 17h e domingos das 10h às 14h
E-mail: bcsp.mlobato@prefeitura.sp.gov.br

 

Gibiteca do Sesi Vila Leopoldina
Endereço: Rua Carlos Weber, 835 - Alto da Lapa - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3834-5523 / 3832-1066 ramal 1180
Horário: Segunda a sexta-feira das 7h às 20h, sábado das 10h às 17h
E-mail: centroculturalsesi@sesisp.org.br

 

Gibiteca da Biblioteca Pública Nair Lacerda
Praça Quarto Centenário, s/ nº - Centro - Santo André - SP
Telefone: (11) 4433-0767
Horário: Segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, sábado das 8h às 12h

 

 

Vídeos sobre história em quadrinhos

Veja aqui um trecho do programa Entrelinhas – da TV Cultura – que destaca a história em quadrinhos e a sua relação com a literatura. O programa entrevistou dois especialistas: o jornalista Paulo Ramos e o editor Gualberto Costa.

 

O vídeo abaixo mostra uma introdução à linguagem dos quadrinhos, seus elementos e principais recursos. Ele foi desenvolvido pela equipe de alunos, bolsistas e voluntários da PUC-Rio do Núcleo de Estudos do Design na Leitura.

 

 

Fontes

- BARBOSA, Alexandre; RAMA, Angela; RAMOS, Paulo; VERGEUEIRO, Waldomiro; VILELA, Túlio. Com usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2008.

- GRAVET, Paul. Mangá: como o Japão reinventou os quadrinhos. São Paulo: Conrad, 2006.

- PATATI, Carlos; BRAGA, Flávio. Almanaque dos quadrinhos: 100 anos de uma mídia popular. Rio de Janeiro, Ediouro, 2006.

 

Na internet:

- Gibi Raro - Apresenta informações sobre o histórico de HQs, curiosidades, perfis de desenhistas, etc.

- Infográfico com as cores mais utilizadas nas HQs dos EUA (diferenças entre herois e vilões)

- The Digital Comic Museum - Considerado o maior museu on-line de histórias em quadrinhos do mundo. Apresenta HQs de domínio público ou que tiveram os direitos cedidos para download. Há edições de 1920 a 1970. Em inglês.

- Toondoo - É um editor de história em quadrinhos on-line. Você mesmo pode montar a sua própria tirinha.

 ESPECIAIS DO MÊS
 OUTROS ESPECIAIS
 BIBLIOTECA VIRTUAL

Não encontrou a informação que procurava?

Envie sua mensagem pelo formulário Fale Conosco e receba a informação que deseja.

Acompanhe as notícias da Biblioteca Virtual pelo Twitter

Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São Paulo on Facebook

BIBLIOTECA VIRTUAL DO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO
Subsecretaria de Comunicação da Casa Civil

Facebook Twitter Google Plus Blog da Biblioteca Virtual YouTube