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Especial: POR QUE AS PESSOAS FUMAM? [09/2009]

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Fumar faz mal à saúde. Isso está mais do que comprovado pela ciência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que um terço da população mundial adulta seja de fumantes, sendo que a cada ano ocorrem cerca de 4,9 milhões mortes em decorrência do uso dos derivados do tabaco. No Brasil, a estimativa é de 200 mil mortes por ano.

Diversos governos e entidades voltadas à saúde pública, no mundo todo, têm promovido campanhas, programas e iniciativas de combate ao tabagismo e seus males. A própria OMS, por exemplo, elaborou um tratado denominado Convenção Quadro para o Controle do Tabaco, assinado por 192 países, em vigor desde fevereiro de 2005. Ele visa, entre outras coisas, estabelecer que estes países elaborem ou atualizem as suas políticas de controle do tabaco. Veja aqui algumas iniciativas já realizadas em vários lugares do mundo.

No Brasil, recentemente, o Estado de São Paulo sancionou sua Lei Antifumo, seguido por outras localidades do país.

Contudo, não devemos confundir as coisas e tomar atitudes moralistas, de caça às bruxas, que acabam por marginalizar mais o fumante do que propriamente as consequências à saúde do ato de fumar. De forma geral, o tabagismo sempre foi aceito socialmente - com algumas exceções históricas - tanto que ele não é considerado crime e ninguém é preso por comercializar ou consumir cigarros. Mas, por que o fumo atrai as pessoas? Por que algo tão arraigado e prosaico em nossa cultura e imaginário, e que passava despercebido em diversos lugares, se tornou motivo de preocupação de saúde pública, chegando a ponto de ser apontado como ato antissocial em certos momentos? Para tentar responder a estas perguntas, precisamos entender como tudo começou.

 

A história do hábito de fumar

Fumar é um hábito mais antigo do que se imagina. O tabaco (cujo nome científico da planta é Nicotiana tabacum) é uma planta originária do continente americano - especialmente da América Central - e os seus nativos a cultivavam e a utilizavam há milhares de anos a.C. Os astecas, por exemplo, fumavam o tabaco em um pedaço de junco ou em um tubo de cana. Os maias tragavam folhas enroladas com barbante. Na América do Sul, usava-se casca de milho ou outras plantas para envolver o fumo. Os modos de consumi-lo podiam ser diferentes, mas as motivações coincidentemente eram semelhantes em todas as sociedades indígenas (mesmo as mais distantes entre si). O tabaco era considerado sagrado e o fumo fazia parte dos rituais religiosos (para espantar os maus espíritos, prever o futuro e se conectar com as divindades), além de ter função terapêutica para estes grupos.

Os europeus conheceram o fumo logo na primeira viagem de Cristóvão Colombo às Américas, em 1492. Um dos capitães da tripulação de Colombo, Don Rodrigo de Jeres, ficou tão entusiasmado com a novidade, que levou um pouco de tabaco consigo em sua viagem de volta.

São muitas as versões sobre a origem da palavra "tabaco". Muitos acreditam que venha da ilha de Trinidad e Tobago (corruptela do castelhano "tobaco"), nome dado por Colombo, pois foi o local em que ele viu a planta pela primeira vez. Porém, outra história conta que os índios do Haiti usavam o "tabacum", instrumento que ajudava a aspirar melhor a fumaça.

Muitos navegadores europeus fizeram o mesmo que Jeres e, com o tempo, a planta e seus usos (o tabaco podia ser fumado, mascado ou aspirado) começaram a ser conhecidos no velho continente. No século 16, surgiram os charutos que, por serem caros, acabavam restritos aos ricos. Porém, os mais pobres também não queriam ficar de fora: os mendigos e trabalhadores de Sevilha, na Espanha, recolhiam os restos de charutos nas ruas, enrolavam-nos em um papel e improvisavam uma espécie de precursor do cigarro. Tendo adquirido valor comercial, o tabaco começou a ser cultivado em larga escala nas colônias da América e na Europa.

Um dos maiores e mais famosos divulgadores do tabaco na Europa foi Jean Nicot, embaixador francês em Portugal (que também foi o criador do primeiro dicionário da língua francesa). Sua contribuição foi tão forte que a nicotina, substância ativa do tabaco, foi assim chamada em sua homenagem. A nicotina em estado bruto já era conhecida em 1571, e o produto purificado foi obtido em 1828. Nicot apreciava aspirar tabaco moído (rapé) que, segundo sua opinião, aliviava a sua dor de cabeça. Logo o indicou para a rainha Catarina de Médici, sempre acometida por terríveis enxaquecas (isso ocorreu por volta de 1560). Não se tem registro que ela tenha melhorado, mas tornou-se fã incondicional da planta, sem sombra de dúvida; tanto que os franceses a chamavam de "erva da rainha".

Chegou-se a acreditar que o tabaco possuísse propriedades medicinais, a ponto de serem catalogadas cerca de 59 doenças que poderiam ser curadas através dele. Até mesmo no Vaticano, a "erva divina" era consumida em rapés, cachimbos e charutos pelos religiosos. Ao mesmo tempo em que os supostos benefícios terapêuticos do tabaco eram admirados e recomendados (pois ajudavam a dissipar a dor e o cansaço), outros efeitos já eram vistos com certo receio pela moral religiosa da época, tais como o prazer e o vício que provocava. As ações antitabagistas surgiram praticamente desde a disseminação do tabaco. O Papa Urbano VIII, por exemplo, chegou a condenar os fumantes à excomunhão.

Já para os jesuítas, fumar só seria pecado se tivesse a intenção de desafiar a ordem divina. Repare que os que eram contrários ao fumo, não eram contrários por questões de saúde - até porque não se conheciam os efeitos muito negativos ao organismo - mas sim por questões morais e culturais.

Mas apesar dessas contradições, o uso do tabaco alastrou-se pelo mundo e por todos os círculos sociais. Cada época teve alguma forma mais valorizada de consumir o tabaco (e indicadoras de status): os cachimbos no século XVII; o rapé e o tabaco para mascar; os charutos no século XIX. Até então, o cigarro não era tão popular como hoje. Em 1881, o estadunidense James Bonsack inventou uma máquina que enrolava cigarros automaticamente. Era o auge da Revolução Industrial, e logo a produção em massa de cigarros fez crescer sua aceitação social, pois era mais econômico e mais prático de carregar do que o charuto ou o cachimbo. Após as duas grandes guerras mundiais, o cigarro já fazia parte constante do cotidiano de milhares de homens e mulheres.

 

TABACO X ÁLCOOL

Segundo a Organização Mundial de Saúde, três milhões de mortes ao ano são provocadas pelo tabaco e 750 mil pelo álcool. Há duas razões principais para isso: fumar é um hábito muito mais disseminado e freqüente do que beber; e o tabagismo é apontado como causa de mais de 40 doenças cardíacas e respiratórias. A nicotina, responsável pela dependência química, é apenas uma das 4 700 substâncias presentes no cigarro – e, desse total, entre 40 e 60 são reconhecidamente cancerígenas.

FONTE: Revista Superinteressante

 

 

 

 

 

 

A popularidade do fumo

Richard Klein*, professor da Cornell University e autor de um livro sobre a história cultural do cigarro, acredita que as pessoas fumam não pelo seu gosto - pelo contrário, pois ele é ruim -, mas pelo poder fascinante de propor um prazer efêmero; que ainda resiste, mesmo com todos as provas atuais de que ele faz mal. Ainda segundo Klein, a introdução do tabaco na Europa, no século XVI, coincidiu com a chegada da Era da Ansiedade. Ou seja: as mudanças e descobertas (invenção da imprensa, descoberta da América, desenvolvimento do pensamento científico, etc. que marcaram a Idade Moderna) sacudiam o mundo de tal maneira que a utilização do tabaco tornou-se uma maneira de conter toda a ansiedade provocada por essa turbulência.

O fascínio pelo fumo foi construído em uma história de séculos, registrado várias vezes em pinturas, obras literárias e músicas e, mais tarde, em filmes e anúncios publicitários. O duplo sentido do fumo, que ao mesmo tempo acalmava e excitava, era associado a uma beleza sinistramente fabulosa, que se estendia muitas vezes à figura feminina. Klein lembra a imagem de Carmen, a cigana protagonista da ópera de Georges Bizet, que foi a primeira mulher, na literatura, a ser representada fumando. Você mesmo deve ter ouvido alguns trechos dessa popular ópera. A cantora Maria Callas já fez uma interpretação que podemos ver num vídeo do YouTube.

A literatura também consagrou diversos fumantes, como é o caso do detetive Sherlock Holmes e seu inseparável cachimbo. No século XX, o fumo também foi amplamente divulgado pelas estrelas do cinema. No clássico filme Casablanca, há personagens fumando na maior parte das cenas. Os filmes do estilo noir (noir, em francês, significa "escuro", sombrio, esfumaçado), nasceram nos EUA a partir da década de 1930, depois da grande crise da bolsa de 1929. Caracterizavam-se pelo enredo policial e pelo ar de mistério e traziam sempre elementos como: detetives, cinismo, bares, mulheres fatais, fumaça e muita gente fumando.

A publicidade, por sua vez, sempre fez questão de destacar certos aspectos que o cigarro poderia trazer ao fumante: charme, elegância, virilidade, inteligência, sucesso, etc. Aliás, a indústria do tabaco sempre foi muito lucrativa, em todo o mundo, e o investimento publicitário em cima do estímulo ao consumo de cigarro sempre foi pesado. Mais recentemente, em vista das iniciativas e campanhas antifumo, muitos países têm estabelecidos regras e restrições à publicidade de cigarros. É certo que a mídia e a publicidade são fatores de grande influência no hábito de fumar (principalmente entre os mais jovens), mas o sucesso do uso do tabaco se deve ao fato de ser uma espécie de muleta para os momentos mais difíceis, tensos ou ociosos. Isso aconteceu na Idade Moderna e acontece até hoje, em meio a esse nosso tempo tão agitado.

As consequências na saúde

Somente a partir da década de 1960, os cientistas comprovaram que o cigarro ocasionava câncer no pulmão e outros males; mas antes disso já se falava que ele não era tão bom para a saúde, como se imaginava há séculos. Apesar da indústria tabagista angariar cifras milionárias, os governos acabam gastando muito com as consequências na saúde pública. O Banco Mundial estima que os países perdem cerca de 200 bilhões de dólares, por ano, no que se refere ao tratamento das doenças relacionadas ao tabaco, mortes de cidadãos em idade produtiva, aumento de aposentadorias precoces e pensões, maior índice de faltas ao trabalho, menor rendimento produtivo, poluição e degradação ambiental.

Atualmente, são conhecidas cerca de 4 mil substâncias existentes na fumaça do tabaco. Dentre elas, a nicotina é a que causa dependência psíquica e física. Isso ocorre porque ela provoca um efeito estimulante e, ao mesmo tempo, tranquilizante, bloqueando o estresse; sua abstinência (caso haja parada brusca) acaba gerando sensações desconfortáveis, tais como irritabilidade, ansiedade, tontura, depressão e necessidade incontrolável de nicotina. Ela atua no sistema nervoso central e consegue chegar ao cérebro em 7 segundos.

De forma geral, a nicotina e as demais substâncias presentes no cigarro podem causar, a longo prazo: dor de cabeça, fadiga, problemas dentários, perda auditiva, perturbações da visão (incluindo catarata), diversos tipos de câncer, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, infarto, derrame, aumento da pressão arterial, diminuição do fluxo sanguíneo para a pele, envelhecimento precoce, falta de apetite, úlcera de estômago, osteoporose, impotência sexual e problemas na gravidez (como abortos espontâneos, nascimentos prematuros e bebês de baixo peso ou doentes).

O chamado fumo passivo, em que as pessoas não fumantes acabam inalando a fumaça dos derivados do tabaco nos diversos lugares que frequentam, também tem trazido muitos transtornos para a saúde pública. Ele é a terceira causa de morte evitável no mundo. A fumaça do cigarro, num efeito imediato, provoca: irritação nos olhos e no nariz, dor de cabeça, dor de garganta, vertigem, náusea, tosse e problemas respiratórios.

 

Principais substâncias tóxicas presentes no cigarro

METAIS PESADOS, POTENCIALMENTE CANCERÍGENOS - cádmio, acetato de chumbo, arsênio e fósforo P4/P6 (substância utilizada em venenos para ratos);

SUBSTÂNCIAS COMPROVADAMENTE CANCERÍGENAS - benzeno e formaldeído

GASES TÓXIMOS PRODUZIDOS DURANTE A QUEIMA DO CIGARRO - terebentina, cetonas, amônia, monóxido de carbono

FONTE: Componentes do cigarro prejudiciais à saúde

 

Como parar de fumar (vídeos do site How Stuff Works)

 

VÍDEO: Como parar de fumar - parte 1 (fonte)

 

VÍDEO: Como parar de fumar - parte 2 (fonte)

 

 

Para saber mais a respeito do hábito de fumar, sua relação com a saúde e as iniciativas antifumo, sugerimos a consulta às fontes que também nos ajudaram nesta matéria.

 

Livro consultado

KLEIN, Richard. Cigarros são sublimes: uma história cultural de estilo e fumaça. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

 

Links Relacionados

Substâncias presentes no cigarro

 

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